Os 30 Anos de Rust in Peace, do Megadeth

Os 30 Anos de Rust in Peace, do Megadeth: Tretas internas, mudanças na formação, problemas com drogas… Isso poderia ter acabado com qualquer banda em ascensão mas, no caso do Megadeth, foi o combustível para a criação de um álbum seminal: o clássico “Rust in Peace”, que comemora três décadas de muito peso!

Com uma formação dessas fica fácil!

O Megadeth vinha de uma bem-sucedida apresentação no Donington Monsters of Rock, em 1988, promovendo seu terceiro álbum “So Far, So Good… So What!”. Na verdade, a performance diante de mais de 100 mil fãs, ao lado de Iron Maiden, Kiss e Guns n’ Roses, lhes rendeu um convite para continuar excursionando pela Europa com a turnê Monsters of Rock – e foi aí que as coisas apenas começaram a ficar complicadas para a banda liderada por Dave Mustaine. Primeiro, o problema com drogas do baixista David Ellefson os forçou a sair da tour após apenas um show! Em seguida, o baterista Chuck Behler e o guitarrista Jeff Young foram demitidos – e isso impediu uma turnê pela Austrália.

Esse show também ficou marcado por uma tragédia

A solução para as baquetas foi bem simples: o técnico de bateria Nick Menza foi efetivado – e ele não só era um baterista espetacular como também um compositor proativo na banda! Já pra guitarra, muitos nomes foram testados – Dimebag Darrel e Jeff Waters entre eles, além de um possível retorno do antigo integrante Chris Poland – mas o escolhido foi o guitar hero Marty Friedman! Bastou apenas uma audição para que Friedman fosse efetivado, fechando assim aquela que se tornaria a formação “clássica” do Megadeth!

O quarteto se trancou no Rumbo Studios, na Califórnia, com o produtor Mike Clink, responsável por álbuns do gabarito de “Strangers in the Night”, do UFO, e “Appetite for Destruction”, do Guns n’ Roses! Clink, inclusive, conduziria a produção com o Megadeth paralelamente ao seu trabalho no multiplatinado “Use Your Illusion”, também do GnR, deixando boa parte do trabalho a cargo de Mustaine e dos engenheiros de som Max Norman e Micajah Ryan.

Tudo que você precisa saber sobre metal em um disco

O resultado dessa mistura extremamente volátil foi um álbum definitivo, tanto para o thrash metal quanto para a música ocidental: “Rust in Peace”, uma obra-prima regada a fogo, sangue e vísceras! Guerras religiosas, inverno nuclear, alienígenas… Nada escapa à máquina de destuição de Mustaine / Friedman / Menza / Ellefson! Um disco que nasceu clássico e se tornou sinônimo de metal!

Os primeiros acordes de “Holy Wars… The Punishment Due!” já dão uma amostra do que vem por aí: uma profusão de riffs cortantes, precisos e inspirados! A música, que na verdade, são duas músicas em uma, tem uma história curiosa: durante uma turnê pela Irlanda do Norte, Mustaine descobriu que camisetas piratas do Megadeth estavam sendo vendidas. Ele foi convencido a não coibir a venda dessas camisetas com o argumento de que o dinheiro arrecadado serviria… À CAUSA. Tratava-se de dinheiro para o IRA, o Exército Republicano Irlandês, que lutava para encerrar o domínio britânico e trazer igualdade para os grupos católico e protestante do país. Não era beeem isso, mas Mustaine gostou da explicação e resolveu dedicar “Anarchy in the U.K.” à Causa – o que causou um tumulto enorme na plateia e forçou a banda a andar em vans à prova de balas depois desse show. Daí veio a frase: “Tolos como eu que atravessam o oceano e chegam a terras estrangeiras perguntando aos cordeiros sobres suas crenças“. Mas essa é só a primeira parte da música! A segunda, como explicamos aqui, é dedicada ao Justiceiro, da Marvel.

Poucos discos podem ter uma introdução tão explosiva quanto essa! E eles não param por aí: “Hangar 18” é sobre Roswell e a Área 51, com todas as suas conspirações alienígenas – acabou virando obrigatória nos shows! Também falam sobre prisioneiros de guerra (“Take no Prisoners”) e guerra nuclear (“Rust in Peace… Polaris”).

Tá pouco? Ok, não há muito o que falar sobre “Tornado of Souls”, uma combinação de solos e riffs que colocou todas as outras bandas de thrash metal de sua época em segundo plano. A qualidade técnica de Friedman aliada à ferocidade de Mustaine entregaram um dos maiores momentos da história desse instrumento: a guitarra. É uma das grandes características desse álbum: há muitos solos e todos espetaculares. Todos brilhantemente executados. Só em “Hangar 18” são OITO solos, que precisam ser repetidos nota por nota por todos os guitarristas que substituíram Friedman. Não há muito espaço pra improviso aqui. Você não faz retoques na Capela Sistina.

Vale notar também o brilhante trabalho de Dave Ellefson. Ele não só fez o melhor trabalho de sua vida neste álbum como garantiu as credenciais pra ser lembrado como um dos melhores baixistas do estilo em todos os tempos. E Nick Menza, em sua estreia, apagou da história todos os bateristas que passaram pelo Megadeth antes – e deu muito trabalho pros que vieram depois.

O álbum foi platina, indicado ao Grammy, levou a banda a tocar no Rock in Rio 2 e garantiu o respeito não só da crítica especializada mas também de um público mais amplo. Sua capa emblemática mostrou que o metal pode ter seus clichês, mas nem por isso deixa de ser surpreendente. “Rust in Peace” foi reconhecido já na época como um dos maiores de todos os tempos – sob quaisquer critérios que possa ser analisado! E estamos falando de um ano que também viu álbuns do nível de “Painkiller” (Judas Priest, sobre o qual falamos aqui), “Seasons in the Abyss” (Slayer, que foi dissecado aqui), “Coma of Souls” (Kreator) e “The Razor’s Edge” (AC/DC). Não é pouco. O talento de Dave Mustaine precisava de uma formação sólida, estável e competente para ser totalmente explorado – é irônico que o epítome de sua carreira tenha sido justamente no primeiro disco com essa formação. Mas não é surpresa se pensarmos que o segredo das equipes mais vitoriosas está em ter conjuntos suficientemente competentes para que os talentos individuais brilhem.

Megadeth – “Rust in Peace”
Capitol Records
Produzido por Mike Clink com Dave Mustaine

Dave Mustaine – vocal, guitarra
David Ellefson – baixo, backing vocal
Marty Friedman – guitarra
Nick Menza – bateria, backing vocal

  1. “Holy Wars… The Punishment Due”
  2. “Hangar 18”
  3. “Take No Prisoners”
  4. “Five Magics”
  5. “Poison Was the Cure”
  6. “Lucretia”
  7. “Tornado of Souls”
  8. “Dawn Patrol”
  9. “Rust in Peace… Polaris”
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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.