Metal pra Ler Gibi

Desde seu nascimento, as letras das músicas de heavy metal jamais estiveram presas ao simples rótulo “dungeons & dragons”, usado pejorativamente para generalizar todo o estilo como incapaz de ir além de histórias medievais. Intrincadas conspirações políticas (“Operation Mindcrime”, do Queensryche), sagas de ficção científica (“The Industrialist”, do Fear Factory), dramas de redenção humana (“Crimson Idol”, do WASP), histórias de horror (toda a discografia de King Diamond), enfim, qualquer coisa pode servir de inspiração para uma boa música. E essa atitude foi além das letras, chegando aos quadrinhos.

Estamos formando uma banda… digo, uma equipe!

O rock pesado se caracterizou pela espontaneidade de roupas extravagantes, maquiagens, máscaras e efeitos especiais que poderiam, perfeitamente, preencher as páginas de uma graphic novel. Em muitos casos, isso realmente aconteceu. Nos anos 70, Kiss e Alice Cooper tiveram gibis publicados pela Marvel Comics que, por muitos anos, foram campeões de vendas da editora. O gibi do Kiss ainda somou uma polêmica a mais: sangue dos integrantes da banda foi misturado à tinta da impressão! Houve outros casos, no entanto, que a estreita relação originou álbuns e músicas que foram marcos do metal.

“They call me Dr DOOM!”

É fácil notar as similaridades entre essas mídias quando pensamos nas capas de discos do Iron Maiden, sempre trabalhos artísticos ricos e detalhados. O desenhista da capa de “A Matter of Life and Death”, Tim Bradstreet, desenha há anos capas para títulos como Hellblazer e The Punisher (em uma entrevista, ele declarou que seus professores do primário diziam quem ele “não chegaria a lugar algum na vida” se continuasse desenhando o Eddie em seus cadernos ao invés de estudar). O Maiden ainda usaria o formato de uma HQ para a capa e encarte do single “El Dorado”. Na década de 70, uma publicação francesa chamava a atenção pela qualidade de suas histórias, tendo sempre grandes nomes no roteiro e na arte. Quando a revista “Métal Hurlant” chegou aos EUA, foi rebatizada como “Heavy Metal”, em 1977. Em 1981, um filme animado adaptando histórias da revista chegou ao cinema, tendo em sua trilha sonora nomes como Journey, Cheap Trick, Nazareth, Sammy Hagar e Black Sabbath.

As Forças Armadas deviam usar esse pôster pra incentivar o alistamento

Na virada da década, a relação se estreitou. O lançamento de revistas com temática mais sombria, niilista e ultraviolenta, particularmente os trabalhos de Frank Miller (Demolidor, na Marvel e o Cavaleiro das Trevas, na DC Comics) e Alan Moore (V de Vingança e Watchmen, para a DC), além do lançamento do selo Vertigo, com títulos como SandmanHellblazer e Shade the Changing Man, juntamente com a britânica 2000 AD, estrelada pelo Juiz Dredd, pavimentaram o caminho para o amadurecimento dos quadrinhos — e de seu sempre exigente público. O protagonista de Hellblazer, o mago John Constantine, teve seu visual inspirado em Sting.

Definitivamente, não é o Keanu Reeves.

Os anos 90 viram o flerte virar namoro. Alice Cooper trabalhou com o aclamado autor de SandmanNeil Gaiman, e o artista da Vertigo Michael Zulli em uma série em quadrinhos ligada ao álbum “The Last Temptation”. Os americanos Iced Earth lançaram um álbum inteiro baseado no personagem Spawn, do artista Todd McFarlane, intitulado “The Dark Saga”. A capa do CD era uma arte feita pelo desenhista regular da série, Greg Capullo, que voltaria a colaborar com a banda no futuro. Scott Ian, do Anthrax (que já tinha gravado uma homenagem ao Juiz Dredd da 2000 AD) escreveu um gibi do Lobo para a DC chamado “Highway to Hell”. Rob Zombie criou diversas séries e Glenn Danzig chegou a começar sua própria editora, a Verotik Comics. Não podemos deixar de citar o álbum de Tuomas Holopainen que homenageia a clássica HQ da Disney, A Saga do Tio Patinhas, “The Life and Times of Scrooge”.

Convenhamos, Alice Cooper sempre foi um personagem de gibi!

Dave Mustaine colaborou com a Chaos! Comics na criação da revista em quadrinhos Cryptic Writings of Megadeth, apresentando adaptações das letras das músicas do disco homônimo. O mascote da banda, Vic Rattlehead, obviamente participa — não sabemos, no entanto, se Dave Mustaine demitiu algum dos artistas do gibi. Mais recentemente, Claudio Sanchez, do Coheed and Cambria, começou a escrever a série The Armory Wars pela independente Evil Ink Comics. Os capítulos da história, bem como as letras das músicas, são parte da história de ficção científica com o casal que dá nome à banda. Recentemente foi anunciado que uma adaptação para o cinema está em desenvolvimento, com Mark Wahlberg no papel principal. Corey Taylor teve a ideia de um homem voltando para casa em um mundo infestado por zumbis durante uma turnê do Slipknot. Ele escreveu os álbuns conceituais de sua outra banda, o Stone Sour, intitulados “House Of Gold & Bones”, partes 1 e 2, e colaborou com a editora Dark Horse para a criação de uma série em quadrinhos em quatro partes. Seu principal objetivo, contudo, é levar a obra ao cinema. O Fear Factory também foi longe: num trabalho em conjunto com Ben Templesmith, renomado artista, mais conhecido por seu trabalho na série 30 Days of Night, criaram um pôster para o DVD Bite The Hand That Bleeds and Related Archetypal Imagery. Templesmith, um grande fã da banda, também colaborou na graphic novel do vocalista Burton C Bell, The Industrialist, também com o desenhista Noel Guard. E por falar em 30 Days of Night, não podemos nos esquecer do roteirista Steve Niles, baixista das bandas Gray Matter e Three. Mais um exemplo de como a música pesada e os quadrinhos andam próximos!

Fãs de metal têm uma coisa em comum com os fãs de quadrinhos (quando não são as duas coisas): são extremamente leais e dedicados, acompanhando o objeto de sua paixão com afinco. Mais do que isso, são nerds obsessivos-compulsivos, não poupando esforços para conhecer a fundo cada vez mais detalhes sobre gibis, álbuns, artistas, formação de bandas, etc.

I AM THE LAW, STALLONE!

Listamos aqui alguns exemplos e como os quadrinhos serviram de influência para o metal — mas também quando o contrário aconteceu. Claro, nenhuma lista dessas pode ter a pretensão de cobrir todas as vezes em que isso aconteceu, então procuramos focar nas canções mais emblemáticas do rock n’ roll, hard rock e heavy metal que tiveram algum tipo de ligação com os quadrinhos.

MEGADETH — Holy Wars… The Punishment Due (Rust In Peace, 1990)
Uma música em duas partes, a primeira, “Holy Wars”, fala sobre “matar por religião” e “irmão matando irmão”. Já a segunda parte, “The Punishment Due”, é sobre The Punisher (O Justiceiro), violento anti-herói da Marvel Comics que costuma enfrentar os criminosos apenas uma vez… “Eu adorava o Justiceiro! Eu acompanhei o gibi por muitos anos,” declarou Mustaine em 2009. Esta é, na verdade, a segunda música do Megadeth sobre o personagem — a primeira foi a faixa título do disco de estreia, Killing Is My Business… And Business Is Good.

ANTHRAX — I Am The Law (Among The Living, 1987)
Ninguém melhor que os reis do thrash metal de Nova York para prestar um tributo a “um homem tão frio que em suas veias corre gelo”. O Juiz Dredd já foi adaptado para o cinema duas vezes: a primeira, uma super-produção constrangedora estrelada por Sylvester Stallone; a segunda, um sucesso cult, ainda que sem o senso de humor da série original, estrelada por Karl Urban. Mas foi nos riffs pesados e letra tóxica do Anthrax que Dredd foi representado em sua melhor forma.

WINGS — Magneto and Titanium Man (Venus and Mars/Rock Show, 1975)
Talvez um dos mais clássicos exemplos. Paul McCartney sempre foi um fã da Marvel e, nessa música, conta a história de três vilões “metálicos” da editora (o Dínamo Escarlate também está envolvido, apesar de não ter o nome no título). A letra, que coloca a namorada do narrador envolvida em um assalto a banco, é tão esquisita que muita gente especulou se não se tratava de uma metáfora para o fim dos Beatles.

ICED EARTH — V (Dystopia, 2011)
Sim, sabemos que o Iced Earth tem um disco inteiro dedicado ao Spawn (falamos sobre isso aí em cima), mas preferimos focar em um trabalho com o vocalista Stu Block, baseado na graphic novel de Alan Moore sobre o misterioso revolucionário conhecido apenas como V. Em uma sociedade totalitária, não é um homem que pode destruir o sistema e devolver a liberdade para o povo, mas uma ideia. Afinal, “ideias são a prova de balas”.

IRON MAIDEN — If Eternity Should Fail (The Book of Souls, 2015)
Segundo Bruce Dickinson, a letra é baseada nos confrontos entre Dr Estranho e Mefisto. Inclusive há uma história do Mago Supremo da Marvel com esse nome. Ainda que a ideia original para essa música fosse uma saga de ficção científica em um disco solo do vocalista, não podemos esquecer que ele sempre aliou ciência e alquimia em suas músicas, mostrando que elas não estão tão distantes assim — como os quadrinhos e o metal, por exemplo. Basta nos lembrarmos da sombra do Batman, discretamente escondida na capa do álbum “Somewhere in Time”.

G//Z/R — Detective 27 (Plastic Planet, 1995)
Esse é o nome do gibi onde o Batman apareceu pela primeira vez: Detective Comics #27, de 1939. O lendário baixista do Black Sabbath Geezer Butler, um grande fã de quadrinhos, precisou negar diversas vezes nos últimos anos que a música Iron Man tenha sido escrita sobre o Homem de Ferro, da Marvel. Ainda que a imagem do personagem tenha sido associada à música, principalmente por conta do grande sucesso do cinema, a música é baseada em um filme japonês de ficção científica. Não faz falta. A homenagem ao Batman é pesada, visceral e honesta.

PINK FLOYD — Cymbaline (Soundtrack from the Film More, 1969)
Uma banda que já é estranha por excelência não podia deixar de homenagear um personagem que é estranho até no nome. A frase “And Doctor Strange is always changing size” (“e o Dr. Estranho está sempre mudando de tamanho”) não parece dizer muita coisa fora de contexto, mas o quarteto sempre foi fã do personagem — que chega a aparecer na capa de A Saucerful of Secrets. Talvez como uma retribuição aos fãs ilustres, o diretor Scott Derrickson incluiu um trecho da clássica “Interstellar Overdrive” numa sequência do filme estrelado por Benedict Cumberbatch sobre o mago supremo da Marvel.

KIRBY KRACKLE — Ring Capacity (E for Everyone, 2010)
A deliciosa homenagem da banda cujo nome é emprestado do estilo visual que Jack Kirby, o Rei dos Quadrinhos, usava para ilustrar descargas de energia a um dos maiores heróis da DC Comics: o Lanterna Verde! Longe de ser metal, mas com um vídeo divertidíssimo e com os visuais atuais dos personagens, mostrando que a banda conhece cronologia!

GREEN JELLY — Carnage Rules (333, 1994)
O Green Jelly sempre foi uma banda de palhaços, com música absolutamente non-sense e descartável. O famigerado “clip dos três porquinhos” foi exibido à exaustão na MTV, mas foi com “Carnage Rules” que eles mostraram seu OUTRO. Baseado na saga de mesmo nome da Marvel, o vilão Carnificina promove um massacre em Nova York, sendo combatido pelo Homem-Aranha, o anti-herói Venom e diversos outros personagens da editora. A música foi trilha sonora do jogo para Nintendo, que fez tanto sucesso quanto a HQ nos anos 90. A versão de nossa playlist, no entanto, é do Drive-by Bukkake.

DISINCARNATE — Monarch of the Sleeping Marches (Dreams of the Carrion Kind, 1993)
Fechando nossa lista, a aterrorizante homenagem do Disincarnate a Morpheus, o Rei do Sonhar na aclamada série Sandman, de Neil Gaiman. Criado pelo guitarrista James Murphy, que já acumulava passagens por Testament, Obituary e Death, o Disincarnate lançou apenas um álbum — com arte do mesmo capista de Sandman, o premiado Dave McKean. Suas melodias complexas e intrincadas fazem do trabalho desta banda um veículo perfeito para Sandman — um ser tão aterrorizante que é capaz de fazer estremecer até mesmo sua irmã mais velha, a Morte.

BONUS TRACK

RAMONES — Spider-Man (Adiós Amigos, 1995)
Ramones e o tema do desenho do Homem-Aranha dos anos 60. Se você não conhece pelo menos um dos dois, nem deveria estar lendo isso.

Ouça no Deezer: https://www.deezer.com/playlist/6855869984?utm_source=deezer&utm_content=playlist-6855869984&utm_term=2403969748_1574443745&utm_medium=web

Com agradecimentos especiais a Renxx pelas informações sobre Steve Niles.

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.