Opinião: Geoff Johns Tem Problemas!

Primeiramente, deixemos claro: Geoff Johns tem trabalhos espetaculares, de (merecidíssimo) sucesso na DC Comics. Pode se discutir e preferir um ou outro por gosto pessoal, mas é inegável o sucesso e reconhecimento. Dito isto, nunca foi um de meus escritores favoritos, nem no auge de seu prestígio com os fãs, alguns anos atrás, no período entre as sagas Crise de Identidade e Flashpoint, quando praticamente comandou todos os rumos do Universo DC (o que, considerando no que deu, não é lá um elogio, mas tudo bem). Sempre fui uma voz, muitas vezes quase solitária, de crítica ao escritor.

E por que este ranço? Porque, em resumo, ele tem defeitos graves. Mais que defeitos, problemas.  Podemos resumir estes problemas em três: saudosismo, texto e… morcegos.

De um tipo bem específico.

O primeiro problema é, talvez, o mais famoso. Chamar Johns de “saudosista” seria o eufemismo do século. Por vezes, ele dá a impressão de todas as noites queimar e amaldiçoar Crise nas Infinitas Terras – na opinião de muitos a maior mega-saga de todos os tempos nos quadrinhos, que remodelou o Universo DC (UDC) para toda uma geração – e ter jurado que dedicaria a vida a desfazer todas as mudanças e, para muitos, evoluções que esta gerou. 

Quando assumiu o UDC, existia toda uma nova geração de personagens ocupando o espaço dos antigos, com novas mitologias, origens, contextos. Johns dedicou os anos seguintes a sistematicamente desfazer tudo isso de forma quase obsessiva. Trouxe de volta o Flash “clássico” (Barry Allen), o Lanterna Verde “clássico” Hal Jordan (escanteando a coadjuvantes de luxo, em ambos os casos, os então titulares dos postos, Wally West e Kyle Rayner, cuja passagem de bastão foi desenvolvida por anos), resgatou os Novos Titãs com uma formação quase idêntica à clássica, etc etc etc. Caberia um texto somente para listar isso.  Não seria exagero imaginar que o plot de Crise Infinita (a maior e mais importante saga escrita por Johns), dos personagens esquecidos voltando para “consertar” as coisas erradas, é uma metáfora do desejo do autor de, sabe-se lá porque, restaurar o UDC ao período “clássico”.

O título da saga descreve a cronologia da editora.

Mesmo que Hal Jordan e Barry Allen sempre venham à mente, talvez o melhor exemplo seja a sua (felizmente) curta fase no Superman, onde reformou a origem do personagem para deixá-la o máximo possível uma mistura do pré-crise com os filmes clássicos (olha a palavra aí de novo…), o que resultou em uma colagem que não funcionou, um frankenstein esquisito que logo foi abandonado. Inclusive, não duvido que a mania meio esquisita do artista Gary Frank em fazer o personagem (inclusive o Clark criança, o que ficava muito estranho, parecendo um anão),  o mais parecido possível com Christopher Reeve, o ator do filme de 1978, seja um pedido pessoal de Johns. Muitas vezes o texto dele parecia mais preocupado em “consertar” (leia-se: deixar igual à infância dele) os personagens do que contar histórias.

Que moleque feio.

 O que nos leva ao segundo problema de Geoff Johns, um tantinho grave para um escritor: texto. Como diz Neil Gaiman, o mais difícil para um escritor não é ter grandes ideias, mas colocar uma palavra após a outra e construir uma história. Não é por acaso que muito poucos escritores alcançam sucesso, pois é uma tarefa nada fácil. É preciso ter criatividade, planejamento, inteligência… e também sutileza. Equilíbrio. Profundidade. Johns não tem. Tem um texto pesado. Expositivo. Muitas vezes, brega. Quando se empolga, então, a coisa passa de todos os limites. Tem ideias muito melhores que a execução. Pega boas ideias, seja próprias ou antigas, e repete, bate e força até o limite, gerando caracterizações unidimensionais, forçadas de barra e diálogos que deixariam Manoel Carlos e Amado Batista corados de vergonha. 

Talvez um dos PIORES diálogos dos quadrinhos.

Relendo Guerra dos Anéis, que é, sem dúvidas uma excelente história (para mim, o ponto alto da fase dele), é inegável como ele deu uma motivação interessante e que faz todo sentido ao personagem Sinestro, de querer impor a ordem no universo através do medo. Porém, é ainda mais inegável como, em 6 edições escritas por ele (o especial de abertura, e Green Lantern 21 a 25), não há praticamente uma fala de Sinestro onde ele não cite/reverencie/repita “medo”.  “Sinestro, seu bigodinho está desalinhado.” “Mas o MEDO nunca desalinha.” “Sinestro, vai um cafezinho?” “Beberei sem MEDO.”  “Sinestro, você prefere Beatles ou Stones?” “Prefiro o MEDO.”

Não apenas ele. O vilão Superciborgue, por sua vez, não basta ganhar subitamente uma motivação (morrer) que contradiz tudo o que foi feito com o personagem antes, como tem TODAS as cenas dele mencionando ou abordando isto. O Superman Prime, um dos personagens mais caricaturais, birrentos e forçados já criados, repetir ad eternum a ladainha de consertar as coisas. Ok, Johns, já entendemos. Menos é mais. 

O típico leitor de gibis.

Isso gera um problema narrativo grave, que é o velho ditado de “quando tudo é especial, nada é especial”. Se todas as falas de Hal Jordan são sobre luz e coragem, isso deixa de se destacar. Se todo recordatório de Sinestro é sobre medo, vira carne de vaca. Isso é básico. Mas Johns parece confundir profundidade e caricatura, reduzindo os personagens a uma linha ou uma ideia e fazendo tudo girar em torno dela em um samba de uma nota só.

E, como já dito, o problema não é apenas de caracterização, mas recordatórios, diálogos e etc. Lanterna Verde: Renascimento, uma das histórias mais aclamadas dele, é reverenciada com justiça como uma aula de costurar conceitos e “consertar” as coisas respeitando a cronologia (embora eu tenha sérias dúvidas se trazer Hal Jordan de volta ao centro da franquia seja “consertar”, vide o começo do texto). Mas, novamente, aparece o problema técnico de texto: por exemplo, na edição 4, temos o seguinte recordatório, que me causou um seríssimo e quase mortal ataque de vergonha alheia tipo A: “A máscara esconde as lágrimas. Por isso John não usa mais a dele.”. Er… sem comentários. E nem me peçam para comentar coisas como a “jaqueta do papai…”

“A Máscara Esconde As Lágrimas – sua próxima novela das oito!”

Ainda sobre Renascimento, o papel do Batman… bom, isso será discutido especificamente. E nos leva ao último problema: Geoff Johns tem um sério, seríssimo, problema com morcegos. Mais precisamente, um certo Homem-Morcego. 

Não tá fácil.

Com exceção do (péssimo) primeiro arco da Liga Novos 52, onde o Batman tem um papel respeitável e até sacaneia Hal Jordan (que é terrivelmente caracterizado como um policial fanfarrão, em mais uma mostra do texto pesado e caricatural de Johns), o Batman foi impiedosamente esculhambado, sacaneado, humilhado, ironizado e pisoteado por Johns em diversas histórias no decorrer dos anos. Comparando pelo carinho (até exagerado, muitas vezes virando devoção, o que tira a sobriedade necessária a um escritor) dele por outros personagens, como Flash, Lanterna Verde, Superman e cia, pior ainda. Vejamos alguns exemplos:

  • Em um de seus primeiros trabalhos na DC, um arco de Superman onde este procura por Lana Lang (não me recordo a edição e minha coleção não está comigo no momento, mas foi logo no começo da publicação do personagem pela Panini no Brasil), o Superman dá um esporro monumental no Batman, que chega todo arrogante como se fosse o único detetive do mundo.
  • Na já citada Lanterna Verde: Renascimento, o Batman do nada passa a implicar com Hal como se este fosse o Coringa, apenas para levar uma senhora enquadrada do John Stewart (“você não gosta do Hal porque ele não tem medo, e o Batman sem medo é apenas um homem”). Como se não bastasse, quando os Lanternas estão LUTANDO CONTRA UM MONSTRO GIGANTE, onde até uma criança de cinco anos perceberia qual o lado certo, Batman tenta DETER Hal Jordan porque… porque… porque sim, apenas para tomar um soco (o maior artista marcial do mundo toma um soco de Hal Jordan, porque seis edições com direito a Guy Gardner dizendo que Jordan escolhe a mulher que quiser e vários outros exemplos não bastavam para mostrar o quão Hal era foda. Sutil como um elefante em loja de porcelana). Tudo bem que Johns tentou compensar fazendo o Morcego devolver o soco em Green Lantern 9, alguns meses depois, mas teve um impacto e alcance dezenas de vezes menor.
  • Em Terra 2, Johns bate todos os recordes e apresenta um Batman que é uma mistura de Didi Mocó, Mister Bean e Chapolin Colorado, que toma bronca do Comissário Gordon por estragar uma cena do crime, apanha de bandidos chulé e não consegue somar 2 + 2. “Ah, mas era um Batman em início de carreira.” Ano Um, Xamã, Batman Begins (com todos os seus problemas) e etc mandam um abraço. De novo: sutileza.
  • Por fim, em Vilania Eterna, Johns consegue a proeza de, em uma história que não era sobre o Batman, encaixar em 7 edições o mesmo passando vergonha de quase todas as formas possíveis: apanhando e precisando ser salvo pelo Exterminador, sendo enquadrado pelos vilões, tomando mil invertidas de Luthor e finalizando com este enganado facilmente e perdendo o anel (hum…) para Lex, que para terminar a humilhação ainda descobre a identidade do Morcego.

Não quero dizer que todo escritor precise ser Grant Morrison e tratar o Batman como um ultrafodão que humilha todo mundo. Mas também não precisa ser o exato oposto. Se Johns se ressente do Batman ter crescido no UDC ofuscado seus personagens preferidos, se apaixonou por alguém fantasiado de morcego que não ligou no dia seguinte nem mandou flores, ou apenas não gosta do personagem porque sim, não sabemos. Mas que tem algo pessoal aí, isso tem.

Ah, vá.

Enfim, Geoff Johns é um escritor de imenso sucesso, milhares de fãs, provavelmente mais rico do que eu poderia sonhar e que realizou seu sonho de escrever seus personagens favoritos. Também deve ser um cara bem legal. Parabéns. Mas que, enquanto escritor, ele tem problemas… ah, isso tem.

Avalie a matéria

Andy Lessa

Andy é um colaborador do Popsfera e o faz com muito amor e carinho.