HOMEM-ARANHA 2 – AINDA O MELHOR

O trailer foi uma das coisas mais espetaculares que eu já tinha visto.

Uma cena em que Peter Parker sacrifica todas as chances com o grande amor de sua vida, para protegê-la, é bruscamente interrompida pela entrada triunfal de um dos mais clássicos vilões do Aranha – trazendo um senso de ameaça real, de agora fudeu mesmo.

Homem-Aranha 2 (Sam Raimi, 2004) chegou aos cinemas cercado de muita expectativa. Houve problemas “extra-campo” (o ator principal, Tobey Maguire, ganhou quatro milhões de dólares pelo primeiro filme e chegou a recusar aumentos para até dezessete milhões. Os produtores correram atrás de Jake Gylenhall para fazer a continuação, mas o pai de Maguire, um figurão da indústria, deu um puxão de orelhas no filho e o convenceu a assinar o contrato de 17 milhões de dólares mesmo. Gylenhall finalmente vai aparecer em filme do Aranha nesse final de semana, no papel do vilão Mysterio.) mas nada que impedisse a produção de ser acompanhada com muita atenção pelo público. Depois do sucesso do primeiro filme, que custou pouco menos de 140 milhões de dólares, mas rendeu mais de 820 milhões nas bilheterias no mundo todo, o orçamento saltou para 200 milhões de dólares.

“Boa tarde, senhores passageiros, desculpe interromper sua viagem mas preciso de dinheiro pro meu filme…”

Com Raimi mais à vontade na direção, sobrou tempo até para homenagear os filmes de terror slasher que o consagraram. O roteiro ficou a cargo da dupla Alfred Gough e Miles Millar, que vinham se destacando com a série de TV “Smallville”, focada na juventude do Superman, e do ganhador do Pulitzer Michael Chabon, já familiarizado com quadrinhos e super-heróis. Para o papel do vilão, Raimi trouxe o experiente ator teatral Alfred Molina. O restante do elenco – James Franco, Kirsten Dunst, J.K.Simmons e Rosemary Harris também garantiram seus lugares de volta. Os créditos iniciais contam com um “resumo” do primeiro filme no traço do artista-supremo Alex Ross e a trilha sonora, mais uma vez, ficou por conta de Danny Elfman.

Mas algumas coisas mudaram desde a última vez que vimos nosso herói…

“Ela encolheu ou fui eu que engordei?”

Peter Parker agora mora sozinho em um pequeno apartamento caindo aos pedaços e paga suas contas tirando fotos para o Clarim Diário. Mary Jane está numa promissora carreira de atriz e Harry Osborn agora é o responsável pelos negócios do pai. Ele resolve investir tudo que tem no experimento do renomado cientista Otto Octavius, sobre o qual não vale a pena dar detalhes técnicos de sua pseudo-ciência. Basta dizer que o plano era testar uma forma de energia alternativa bem no meio de Manhattan, uma fonte perigosa o bastante pra varrer toda a Costa Leste do mapa se desse errado. E não é que…

Aí apareceu o único ponto fraco do filme. Octavius não é exatamente um vilão – ele é apresentado como um cientista brilhante, mas muito acessível com seu jovem ex-aluno Peter; um marido dedicado e amoroso, sua obstinação em criar uma forma de energia limpa é fruto apenas de seu altruísmo. Para isso, ele inventa um módulo com quatro tentáculos metálicos que ficam ligados a sua espinha por uma malha cibernética controlada por um chip. O problema? Octavius não controla o chip – mas pode ser controlado por ele.

Mas quem nunca sonhou em ser controlado por tentáculos?

Como isso se dá, mesmo na pseudo-ciência dos quadrinhos, é uma incógnita. Mas o “vilão-que-não-é-mau-de-verdade-apenas-vítima-de-um-experimento-científico-que-deu-errado” já tinha sido usado no filme anterior – Norman Osborn era um péssimo pai e homem de negócios sem muitos escrúpulos, mas apenas a fórmula do Duende fez dele um assassino. No filme seguinte, o Homem-Areia era apenas um cara capaz de ir às últimas consequências pela sua filha doente, até ser pego no meio de… um experimento científico, que altera sua estrutura molecular. Enfim, pra quem está acostumado com o bom e velho Dr Octopus dos quadrinhos, a nova roupagem parecia tão estranha quanto, sei lá, lançadores de teias orgânicos – mas se isso deu certo, porque essa nova versão do Octopus não poderia?

E o filme conta com cenas épicas, como a luta no metrô, ou a luta no banco, ou… Enfim, é de tirar o fôlego. Ele tem ainda mais acertos que o filme anterior, os personagens continuam suas jornadas de desenvolvimento e até os efeitos especiais estão melhores (lembre-se, é um filme de quinze anos de idade, então é normal que a gente seja crítico aos efeitos, que evoluíram muito desde então).

Outro ponto forte é o desenvolvimento de Harry Osborn. O melhor amigo de Peter Parker descobre que ele é o Homem-Aranha e, graças a uma aparição surpresa de Willem DaFoe como Norman, mergulha na loucura e vai dedicar sua vida a destruir o homem que ele acredita ter matado seu pai.

O romance entre Peter e Mary Jane também chega aos finalmentes, com a mocinha desistindo de casar com o astronauta John Jameson, filho do editor-chefe do Clarim Diário, para ficar com o Homem-Aranha – agora ciente do segredo dele, ela percebe o quanto ele tentou protegê-la e o quanto isso o tornava ainda mais especial.

Se ela soubesse que ele não passa de um surfista de trem…

É curioso pensar que não só Maguire, mas também Dunst e a simpática Rosemary Harris não usaram dublês na maioria das suas cenas – isso mesmo, é a própria tia May pendurada em cabos ali e arriscando a vida. Já Molina recorreu a dublês sempre que necessário. Segundo ele, “os dublês não me substituem quando faço o meu serviço, então não vou me intrometer no serviço deles.” Em compensação, Raimi pregou uma peça no veterano ator. Enquanto fazia uma pausa nas gravações, ligaram um dos monitores para Molina e ele viu, incrédulo, que fora substituído na cena em que ganha seus tentáculos por ninguém menos que… Willem DaFoe, que entrou no estúdio escondido com a ajuda de Raimi!

Você diria não a esse homem?

Homem-Aranha 2 é lembrado, não por acaso, como um dos melhores filmes de super-herói já feitos. Diversos fatores contribuíram para o sucesso do filme: a referência a “Spider-Man No More”, as sequências de ação, o desenvolvimento dos personagens e, principalmente, a trajetória de Harry Osborn; tudo isso parece ser esquecido hoje em dia, quando não se começa a fazer um filme sem se pensar em “trilogia” ou “franquia”. Os filmes de Raimi para o Aranha são um tipo de cinema que olha para si mesmo, tentar entregar o melhor e, graças a essa ingenuidade pueril, tem menos dificuldade em cumprir o que promete.

Inclusive uma das cenas excluídas mais sensacionais da história do cinema – que jamais veremos
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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.