FIM DE UMA ERA: DAN DIDIO SAI, MAS A DC FICA!

Com a saída de Dan DiDio, é normal que rolem especulações e rumores sem sentido. É isso que alimenta o mercado, principalmente o mercado de entretenimento. Por isso às vezes encontramos sites que extrapolam nos boatos que espalham, com base em parcas migalhas de informações e envoltos em muita especulação sem sentido, disseminando verdadeiras fake news.

Nós do Popsfera não compactuamos com a disseminação de informação falsa. Temos o dever de informar com seriedade sobre os fatos. E somente os fatos podem brilhar frente às mentiras e exageros. Por isso vamos escrever sobre as possibilidades ao redor do fato, a saída do DiDio, e os boatos mentirosos e escandalosos que estão sendo gerados em paralelo.

Demissão de Dan DiDio

Na sexta-feira o leitor de quadrinhos e nerd de plantão foi surpreendido com a demissão de Dan DiDio da editora DC Comics. Nada se sabe até o presente momento, se ele pediu o boné ou demitiram ele. E isso não é importante, mas podemos interpretar que tenha sido por parte da empresa, por ter pego muitos de surpresa e sabendo que ele ainda tinha compromissos firmados em agenda com representantes varejistas de quadrinhos.

Foram 18 anos onde DiDio fez um trabalho exemplar a frente da DC. Como nunca existirá unanimidade, ele tinha seus defeitos e seus inimigos, mas sua competência o guiou ate o mais alto cargo da editora, quando Paul Levitz se aposentou. Em 10 anos com seu cargo de coeditor (uma das patentes mais altas na indústria) ele viu o céu com o sucesso dos Novos 52 e o inferno com seu novo projeto DC 5G. Aparentemente sua demissão, segundo os sites de fofocas nerdys (sim, isso existe e vamos comentar logo à frente), se deu por fracassar em criar um ambiente tranquilo em Burbank, onde as equipes pudessem se desenvolver, sendo seu maior problema o microgerenciamento.

DiDio tinha um preciosismo absurdo no gerenciamento das equipes. Ele dava pitaco em todas as áreas de publicação, solicitando inclusive inserção ou alteração de diálogos, mudanças de poses de personagens para desenhistas e sempre alterando o cronograma para que os gibis não atrasassem. Isso criava ainda mais atrito com os artistas que se sentiam humilhados, haja visto que, para a publicação não atrasar, DiDio não hesitava em contratar desenhistas fillers (tampões). Tudo isso no decorrer dos anos 10 no cargo, o que criou uma série de atritos desnecessários e desgastes que minaram sua autoridade.

Boatos e mais boatos. Em quem confiar?

Vemos que muitos sites estão querendo se basear num comportamento bem comum para os dias atuais: espalhar fake news e torcer para que dêem certo. – ao mesmo tempo em que afirmam com todas as letras que já acertaram palpites anteriores, para ter credibilidade. É o caso do Cosmic Book que surgiu do nada e desde o ano passado está forçando goela abaixo suas fake news sem base alguma. Matérias como “Venda da DC pela AT&T”, “Kevin Feige irá assumir as publicações da DC” e “Marvel irá comprar a DC”. A última é de que a DC irá licenciar seus clássicos personagens para a Marvel publicar.

O compromisso com você prezado leitor é trata-lo com o respeito que merece e com isso informa-lo com a clareza que precisa.

Marvel irá comprar a DC?

O rumor mentiroso da vez ventilado pelo Cosmic Book, é de que a AT&T (empresa que é dona do grupo Warner, assim como a Disney é da Marvel) está insatisfeita com as vendas dos quadrinhos da editora. Ela estaria cogitando licenciar os personagens para serem publicados pela Marvel, saindo do ramo editorial, para somente utilizar os personagens para séries e filmes.

Só que tem um probleminha todo nesse “rumor”: a fonte é a mesma que informou que a DC seria vendida no ano passado, o desenhista Ethan Van Sciver. O outrora desenhista hoje se dedica a disseminar boatos mentirosos e sem sentidos através de lives no YouTube. Van Sciver não tem contatos na AT&T e, mesmo que tivesse, não tratariam de assuntos sigilosos com um sujeito que simplesmente joga na internet causando escândalo.

Um dos maiores exemplos foi que noticiamos a venda da DC aqui no Popsfera ano passado (você pode ler aqui). Obviamente, não se concretizou, mas mantemos a análise que foi feita dos fatos. E por isso o dever de um veículo de informação competente é averiguar as fontes e se elas podem ser validadas. Se o antigo desenhista não “acertou” ano passado, dificilmente o raio cairá dessa vez.

A Marvel pode realmente comprar a DC?

Sou leigo nas questões legais americanas, mas acredito que as leis antitruste dos EUA não permitam. Mas me faz lembrar de um fato muito interessante relatado por Jim Shooter sobre a possibilidade de o Superman ser publicado pela Marvel Comics em 1984.

O relato detalhado de Jim Shooter, você encontra aqui, mas resumidamente, o antigo roteirista da Legião dos Super-Heróis e que estava na Marvel como editor, foi contactado por um figurão da Warner Media, que queria a Marvel publicando os personagens da DC Comics. O motivo? As revistas da DC não vendiam bem e eles só queriam os personagens para licenciamento de filmes e séries, pois achavam que lucravam mais desta forma. Parece familiar?

Shooter propôs a publicação dos personagens da DC ao presidente da Marvel, mas topou com a argumentação de que, se os personagens não vendiam, é porque eram fracos. Shooter conhecia bem este universo, afinal trabalhara por anos na rival e sabia que havia um rico universo a ser explorado. E as possibilidades seriam infinitas. Determinado, foi para casa formar um plano de negócios e apresentar a Joe Calamari, o vice-presidente executivo de negócios da Marvel.

Nos planos do editor, a Marvel começaria com poucos títulos que poderiam ser expandidos se fizessem o sucesso que ele esperava. Eram eles: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Jovens Titãs, Liga da Justiça e Legião dos Super-Heróis.

As estimativas eram altas: Jim assegurava que a Marvel conseguiria vender 39 milhões de cópias nos 2 primeiros anos, gerando um lucro de aproximadamente $3.500.000 de dólares – algo raro para um editora de quadrinhos em 1984.

Há uma riqueza de detalhas no artigo de Shooter que vale uma conferida por você, prezado leitor. E você se pergunta: o que houve com esse negócio altamente lucrativo?

Aparentemente o plano de compra vazou e criaram rumores em cima do ocorrido. Mesmo com o presidente da Marvel animado e pronto para comprar a DC, a First Comics iniciou um processo contra a editora do Homem-Aranha, alegando violações antitruste – e isso melou o negócio. Afinal, comprar a maior concorrente em meio a processos desse tipo não seria uma boa forma de passar uma boa impressão ao mercado, não é mesmo?

Óbvio que esse rumor atual de venda da DC poderia ter sido plantado pela AT&T, até mesmo para ser utilizado como sondagem de mercado. Mas eles utilizariam um site sem credibilidade alguma que usa uma fonte pior ainda? Coloque a caixola para pensar e saberá a resposta. Logo, cai por terra um rumor sem sentido, sem validade e sem chão, que está sendo disseminado apenas para render views em sites inescrupulosos. Me faz rir quando esses novos rumores são ate mesmo inferiores aos dos anos 80. Vai entender.

Forbes quer a venda da DC Comics?

A Forbes ano passado divulgou um resumo da carta do conselho da AT&T e analisou o periódico aqui.

A verdade que após a aquisição da Warner Media por 85,4 bilhões de dolares, a AT&T herdou uma dívida de 164 bilhões de dolares. Então era necessário fazer cortes para que os lucros da empresa adquirida fossem otimizados. Logo o famoso selo Vertigo (responsável pelas publicações adultas da DC) foi encerrado e a revista de humor MAD cancelada. Esta última era mantida apenas por pura nostalgia e por ser publicada desde 1950 de maneira interrupta, mas que não rendia lucro. E o selo responsável pelas publicações de Sandman rendia mais com a venda de encadernados. Logo, foi uma questão lógica o fechamento de ambos.

Mas os títulos Sandman e Hellblazer não ficaram sem lar: a editora criou o Black Label, onde pôde abrigar esses personagens com publicações mais maduras que a linha convencional. Em paralelo, a DC criou selos para trazer novos leitores: Ink (destinado ao público de jovens adultos) e Zoom (destinado ao público infantil) e assim arrendar um fandom mais diversificado.

Outra submarcas foram fechadas, como pequenos serviços de streaming (o Filmstruck) para dar lugar ao super streaming HBO MAX.

A AT&T encontra-se no mesmo lugar da Disney quando esta comprou a Marvel: precisa urgentemente profissionalizar a área de publicações e está forçando o mercado. Para a dona da Warner, onde está o dinheiro e tem funcionado é no licenciamento de personagens para TV, com Greg Berlanti fazendo um belo trabalho na CW, e Geoff Johns na DC Universe (streaming da editora). Mas a DC Comics é necessária, sem ela eles perdem a fanbase. É uma cadeia bem produtiva, onde todos lucram, seja o fã dos quadrinhos, das séries, filmes ou games.

Logo é muito improvável que a AT&T sequer cogite vender ou pense em licenciar para a sua maior rival seu rico tesouro, que são seus personagens e universos.

Dan DiDio fora. O que isso afeta a DC atualmente?

A DC Comics pode ser afetada diretamente em 2 projetos em andamento do próprio DiDio. Um deles é o criticado DC 5G, ou 5ª geração da DC. Basicamente era o envelhecimento dos heróis clássicos da editora, onde seriam substituídos por novos personagens com alcunhas antigas. 

5G segue firme e confirmado

O problema desse projeto por parte dos figurões da AT&T seria com o licenciamento de personagens para o cinema. Por exemplo, eles estarem investindo num novo filme do Batman/Bruce Wayne que possa atrair leitores para os quadrinhos, e quando estes forem às bancas, encontram um personagem totalmente diferente. Podendo afetar novos leitores e frustrá-los por tabela. E DiDio não tinha essa preocupação, o principal objetivo era de mudar, para que assim essas alterações pudessem surtir um impacto no mercado e esse impacto trouxesse novos leitores. Quem aqui não começou a ler quadrinhos nos anos 90, com a mudanças de Batman, Lanterna Verde e Superman (quando estes foram substituídos por Jean Paul Valley – o Azrael, Kyle Rayner e outros 4 novos Supermen)? E mudanças que sabíamos que seriam temporárias, mas mesmo assim foram fases memoráveis e marcantes.

A grande verdade é que, mesmo Dan DiDio sendo a força motriz por trás desse projeto, a Warner e AT&T já assinaram concordando com o 5G em toda a sua glória. O que foi apurado ate o presente momento é que os criadores envolvidos e liderados por Brian Cunningham foram informados que nada mudou no cronograma. O plano é anunciar na San Diego Comic Con e lançar em outubro, com 6 meses de quadrinhos já concluídos. O detalhe divulgado pelo Bleeding Cool é que as mudanças para a 5ª geração de heróis serão feitas de maneira lenta e gradual, para que os leitores aceitem melhor. Isso leva a entender que DiDio queria mudanças bruscas para chocar e chamar atenção dos leitores, tal qual fez nos Novos 52.

A reorganização da timeline do universo DC, onde tudo vale, segue forte

Outro projeto que já foi anunciado e está em fase de publicação nos próximos meses é a implantação da nova timeline da DC, onde a editora estabelece sua linha cronológica (leia sobre isso aqui). Esse dificilmente será alterado, pois, já esta em fase bem avançada. Logo, nada muda.

Death Metal será a nova crise?

DiDio queria utilizar a nova saga de Scott Snyder para estabelecer o DC 5G, só que Snyder era um ferrenho crítico dessa ideia. Na prática, a DC faria da mesma forma que fez com Flashpoint, que era uma aventura do Flash no universo DC e se tornou uma “crise” para trazer grandes mudanças na linha editorial.

Snyder não concordava e, com isso, enfraqueceu DiDio no comando. Isso são fatos. Se essa falta de apoio foi fundamental para a demissão, nunca saberemos. Mas uma coisa podemos interpretar, Death Metal certamente não será utilizado para as mudanças, a não ser que o novo gestor consiga convencer Snyder do contrário.

Ok, DiDio saiu, mas e agora?

Na prática, quem está no comando geral agora é Jim Lee, mas alguns meios já apontam para possíveis candidatos. Sendo o mais lógico Geoff Johns assumir.

Até o presente momento já cogitaram Jeph Loeb, Scott Snyder, Tom King e Geoff Johns. Mas há um porém em todos eles: Loeb foi recém-demitido do grupo Marvel, e provavelmente há uma cláusula anti-competição para que não assine com a sua maior rival. Isso não é dito por nenhum meio, mas o mesmo deve ocorrer com Dan DiDio. Esse tipo de cláusula é bastante comum.

Já promover Tom King ou Scott Snyder seria mais improvável, pois eles não têm a experiência necessária para o cargo. Um comentário bem legal foi postado por Phil Jimenez no twitter:

Uma imagem contendo captura de tela

Descrição gerada automaticamente

“Uma coisa que me fascinou é a especulação sobre quem será o novo editor na DC – sem um entendimento claro das responsabilidades de um editor e de seus deveres, tanto criativos quanto corporativos, em 2020. É um grande trabalho com muitos componentes para conciliar.”

Não há candidato com currículo melhor do que ELE

As pessoas esquecem que DiDio se tornou o rosto da DC Comics nesses últimos 18 anos, estabelecendo uma política bastante agressiva no que tange os meios para conseguir vender gibis, e sendo bem-sucedido. Logo, o novo editor que será contratado, tem de ser um sujeito bem relacionado com as majors dos quadrinhos, sabendo selecionar novos escritores e desenhistas, negociar contratos, contratar editores que possam ajudar as equipes criativas a desenvolver seu melhor, saber dar liberdade e dosar com boa força politica no meio AT&T, Warner e DC Comics.

Com tudo isso em mente, só posso torcer para que contratem o Geoff Johns, pois ele compreende todas essas características, além de ser um profundo conhecedor do universo DC. E acaba por ser um candidato que não tem as características progressivas do DiDio, e que pode fazer os personagens em sua forma mais icônica voltarem, afinal se a preocupação dos diretores da AT&T era do 5G afetar as versões dos personagens que são adaptadas para a multimidia, ninguém melhor do que Johns. Se ele se dedicar exclusivamente para isso, a editora pode sim respirar tranquilidade política e voltar brilhar em breve.

Ou a AT&T resolve radicalizar e contrata um novo editor experiente, que iniciou uma editora nos anos 90 e que também é dono de uma fábrica de estátuas e action figures.

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Seria Toddinho a salvação da DC Comics e a guinada que precisa para sair do marasmo? Quero crer.

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Puyol Miranda

Uma simples testemunha da humanidade, que presencia todos os dias as grandes maravilhas de Deus. Além de presenciar o mais lindo momento de uma etapa de crescimento, me tornar pai. Sou analista de ti, leitor de quadrinhos, decenauta convicto e amante da tecnologia.