Você já leu? – Camelot 3000

Acredito que quase todo mundo no planeta já ouviu falar sobre o Rei Arthur, relatado nas linhas escritas por Sir Thomas Mallory em seus contos e nas diversas adaptações em uma infinidade de mídias, rádio, tv, cinema, teatro, enfim… talvez todas as mídias conhecidas já tenham, pelo menos uma vez, adentrado no universo de Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda.
Na nona arte, temos também diversas referencias, mas nenhuma delas tão icônica quanto Camelot 3000, idealizada por Mike W. Barr na metade dos anos 70 e que veio a luz no formato de maxi série iniciada em dezembro de 1982. Em verdade, foi a primeira história pensada para esse formato – fechada e contida em 12 edições.


Barr leva o mito do “Único e Eterno Rei” para o ano 3000, onde a humanidade passou pela 3ª guerra mundial. Não bastasse isso, os habitantes da Terra convivem com mutações e uma invasão alienígena. Neste cenário, o garoto Tom tenta escapar, junto de sua família, para um local seguro mas acaba perdendo seus pais na tentativa. Refugiando-se num centro de escavação em Glastonbury, acaba acordando o Rei Arthur de seu tumulo, como reza a profecia – “Quando a Inglaterra mais precisar, seu Rei voltará! ”.

A história segue e a dupla liberta o mago Merlin em Stonehenge, indo depois atrás das encarnações dos cavaleiros de Arthur. A encarnação de Guinevere é Joan Acton, comandante das forças de defesa da Terra enquanto Jules Futrele, um milionário francês é a encarnação de Lancelot – com isso, o fatídico triangulo amoroso é restituído. São encontrados também Kay, o irmão adotivo de Arthur, como um viciado em jogos; Galahad, filho de Lancelot, como um samurai em desonra; Gawain, primo do Rei, como um policial e chefe de família africano; Percival, o mais valoroso cavaleiro, em um contraste com sua alma, renasce no corpo de um ser monstruoso e Tristão, encarnado no corpo de Amber March, uma mulher prestes a se casar.


Camelot 3000 foi a primeira história a tratar de maneira aprofundada a questão da identidade de gênero, pois Tristão, mesmo com a fisiologia feminina, continuava apaixonado por Isolda e esse plot se faz relevante na narrativa, sendo mostrado com imensa responsabilidade e transparência. Aqui em terras brazucas, na primeira vez em que foi publicada, mais precisamente nas revistas Super Amigos e Batman, foram deletados os quadros onde essa paixão se consuma. Lembremos que era o ano de 1984.


Por falar em quadros, chega a hora de ressaltar outros dos muitos pontos magistrais dessa obra: A arte de Brian Bolland!
Oriundo de publicações com temática sci-fi, Camelot 3000 foi um dos primeiros trabalhos do desenhista inglês para a DC Comics e com seu traço realista conseguiu captar toda a essência proposta por Barr para os personagens e situações.


No decorrer da história, temos ainda a revelação do papel de Morgana Le Fay na trama, bem como seu filho bastardo Mordred: nesta realidade, ele é o diretor de segurança da ONU. Nada na saga é desprovido de proposito e, mesmo hoje parecendo datada a um primeiro olhar, a história é estupenda e atualíssima!
O roteiro aborda assuntos meio impensáveis para a época de lançamento, como a já citada sexualidade, o preconceito e até mesmo a xenofobia, tornando essa uma das mais cultuadas series de HQ. Se você já leu, releia. Se ainda não leu, não sabe o que está perdendo…


Publicações:
Editora Abril – 1984/1985, nas revistas Super Amigos e Batman. Em 1988, em formato de mini serie (4 edições)
Editora Mythos – 2005, em encadernado.
Panini Comics – 2010, em encadernado de capa dura.

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Fabiano Souza

CAPITÃO no meio campo, escreve textos e destrói falsos deuses antes do café da manhã