Você Conhece Shang-Chi, O Mestre do Kung Fu?

Talvez Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu, não esteja na lista dos seus personagens favoritos… ou talvez esteja, não sei. Mas ele é um dos favoritos do meu pai e, por consequência, parte da minha formação no universo dos quadrinhos.


Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu, foi criado por Steve Englehart e Jim Starlin, em 1973, aproveitando a onda de sucesso dos filmes de artes marciais, popularíssimos na década de 70. Em especial, da série estrelada por David Carradine, intitulada Kung Fu.
A série contava a história de um monge Shaolin chamado Kwai Chang Caine, que cruzava o oeste americano em busca de seu irmão. A produção era da Time Warner e, por motivos óbvios, a Marvel não obteve autorização para uso de nenhuma referência. Desta forma, com a ajuda de Roy Thomas, a Marvel correu atrás da licença para utilizar o personagem Fu Manchu, vilão pulp criado por Sax Rohmer e que teve seu primeiro conto publicado em 1912. Ele já tinha aparecido nos quadrinhos, mais especificamente na revista Detective Comics, de março de 1937, e foi imortalizado pelo lendário Christopher Lee em cinco filmes para o cinema na década de 60.

Carradine encarnando o monge shaolin

A primeira aparição de Shang-Chi se deu em 1973 na revista Special Marvel Edition #15, como um extraordinário artista marcial, filho do chefe do crime chinês (Fu Manchu). Enviado para assassinar um inimigo de seu pai, acaba descobrindo a verdade sobre seu genitor e decide combatê-lo. Aqui no Brasil, fomos apresentados ao personagem na revista Kung Fu, da EBAL, em 1974 e em preto e branco. Os personagens da Marvel logo teriam os direitos adquiridos pela Bloch Editores e, mais um tempo depois, pela Abril.
Em 74, o artista Paul Gulacy ficou com o “lápis” das histórias do Mestre do Kung Fu e começou a pautar a aparência de Shang Chi na do grande Bruce Lee. Em verdade, ele homenageava grandes astros do cinema nas feições dos personagens da publicação. Sua parceria com Doug Moench marcou a melhor fase do herói, que durou 3 anos.

A fase Moench e Gulacy é tida como a fase de ouro do personagem. Eles afastaram o approach do seriado para criar tramas mais ligadas à espionagem, utilizando Sir Dennis Nayland Smith, Dr. Petrie, Black Jack Tarr e outros agentes do MI-6 – serviço britânico de inteligência – juntamente com Chi para permear as histórias com um clima misto de James Bond e Bruce Lee.

As aventuras do artista marcial se seguiram sem grandes interrupções, mesmo depois da dupla deixar o titulo. Nesse meio tempo, o herói combateu o bom combate e conheceu o amor de Leiko Wu. Shang-Chi também conheceu sua meia-irmã Fah Lo Suee, que se tornou uma admirável antagonista aliada de seu pai. Com Smith, Tarr, Reston e Wu, ele formou a Freelance Restorations, Ltd, baseada no Castelo de Stormhaven, na Escócia. Após finalmente derrotar seu pai (ou acreditar nisso) ele deixou tudo para trás e foi viver uma vida tranquila em sua terra natal, a China.

Tranquilo e infalível

Depois de um hiato, Shang-Chi voltou. Infelizmente, a maioria do elenco de apoio da série era de personagens licenciados e foram sendo limados ou sendo “rebatizados”. O próprio Fu Manchu parou de ter seu nome “pronunciado” até que em 2010, Ed Brubaker resolveu a parada, ressuscitando uma versão zumbi do vilão e declarando que “Fu Manchu” era apenas um pseudônimo; que o pai de Shang-Chi era realmente Zheng Zu, um antigo feiticeiro chinês que descobrira o segredo da imortalidade. Em 2013, Fah Lo Suee foi renomeada como Zheng Bao Yu. Já outros personagens, como Sir Dennis Nayland Smith e Dr. Petrie não figuravam desde 83 e o final da serie televisiva Kung Fu.

Recentemente, o Mestre do Kung Fu fez parte dos Protetores e dos Vingadores, ajudou o Homem-Aranha, Capitão America e mais uma pancada de heróis do “primeiro escalão” da Marvel. Teve seu visual repaginado e até ganhou poderes, conseguindo se replicar e se tornar um “exercito de um homem só”

Em breve (se você está lendo esse texto em 2020) será lançado o filme Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, titulo que já nos deixa com a premissa de uma relação com o vilão Mandarim (tão mal utilizado em Homem de Ferro 3). Esperemos que o filme traga elementos da fase áurea do personagem, que tanto contribuiu com a minha formação como pessoa. Como? Eu explico: se meu pai não gostasse das histórias do Mestre do Kung Fu, eu não seria apresentado aos quadrinhos e isso não desencadearia minhas outras paixões – escrita, música, cinema – e, provavelmente, não estaria escrevendo essa matéria que acaba de ler!

O material clássico do Mestre do Kung Fu foi recentemente republicado pela editora Panini e pode ser encontrado na Amazon. Confira aqui.

Meu pai dizia muitas vezes para mim: “Um homem deve ser muito cuidadoso na escolha de seus inimigos, por que uma vez que ele tenha escolhido… ele terá perdido um amigo.” Estas são palavras pelas quais meu pai viveu, pois ele é Fu Manchu, e sua vida é a sua palavra

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Fabiano Souza

CAPITÃO no meio campo, escreve textos e destrói falsos deuses antes do café da manhã