Um Ano de Popsfera – Como Vim Parar Aqui? (dread)

Dona Dita após o convento.

Dona Dita, minha mãe, foi freira em sua juventude, tendo desistido do celibato clerical por volta de seus 30 anos para ser mãe. Deus, em sua sabedoria, a premiou por todos os anos de devoção dedicados a Ele e, assim, eu nasci.

Recentemente, na festa de comemoração de seus 70 anos, mamãe ao microfone relembrou, para uma platéia de umas 50 pessoas, a noite em que eu de fato melhorei esse planeta involuntariamente apenas por nascer. Ela disse:

“Na noite em que o Dani nasceu (eu), o meu marido Waldo (meu pai) quis sexo.”

Sim!

50 pessoas olharam pra mim. Eu congelei no meio do gole, com o copo no ar. O silêncio era sepulcral. Meu irmão gritou: POR ISSO ELE É ASSIM TODO GOZADO!

Como incidentes iguais a esse são normais nas reuniões de minha família, nem me abalei. Ali, olhando para aquela sorridente senhora, tentei lembrar de tudo o que ela me deu nessa vida sem eu pedir e, às vezes, sem que eu merecesse: o amor incondicional, a dedicação, todo o suor em épocas difíceis (e nós tivemos nossa quota, acredite)… mas tem uma coisa que mamãe me deu que eu guardo com um carinho incomensurável. Não que seja maior do que as demais, porque não é, mas a vida é assim mesmo…

Aos meus quatros anos, em 1979, mamãe iniciou minha alfabetização. Ela era professora de creche no convento onde passara uns belos 15 anos de sua vida. Para auxiliar a minha visualização de palavras associada a situações e tals, Dona Benedita Gregio não dispunha de Bob Zoom ou Galinha Pintadinha, então a solução encontrada foi GIBIS!

Amor à primeira vista!

Tudo o que tinha na banca passou pela minha avaliação: Turma da Mônica, Disney, Marvel, Turma do Lambe Lambe, Recruta Zero, Luluzinha, Fantasma e mais um monte de títulos que se apagaram da minha memória nesses já 45 anos de puro brilho. Lembro das revistas de transfers, uma paixão de verão na minha infância.

Eu realmente fui fisgado pelos gibis, seguindo minha mãe pela casa e perguntando o que o Cebolinha estava falando naquela cena, porque Hulk não se pronunciava “Ulk”, e na aula do NHA NHE NHI NHO NHU eu já tinha diploma por causa do Homem-AraNHA.

Eu nunca deixei de ler gibis desde então. Alguns percalços aqui e ali, desconfortos causados pelas intempéries que a vida nos dá, mas eles, os gibis, sempre estavam lá comigo. E com eles, minha mãe também. Espero de verdade que vocês entendam.

Passei os últimos dias matutando sobre esse texto, pensando em relatar tempos de MBB, discussões sobre o futuro do fórum, o encontro que tive com os idealizadores do Popsfera, mas era só nessa história que eu conseguia pensar.

Obrigado, mãe! Sem a senhora eu não estaria aqui, não teria o pouco que tenho, não seria eu mesmo (o que seria uma pena) e nem sequer teria lido um gibi na vida.

Te amo, mamãe. Beijos…

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