Teria Exterminador do Futuro se Inspirado Num Passado Esquecido?

Exterminador do Futuro, de 1984, é um marco da ficção científica e também da força de vontade do seu diretor, James Cameron. Com um orçamento modesto (6.500.000 dólares), e um roteiro escrito pelo mesmo em parceria com sua esposa na época, Gale Ann Hurd, conseguiu a façanha de por na tela a saga de dois viajantes do tempo, um humano e outro um andróide assassino, vindos de um 2029 apocalíptico, onde as máquinas, através do sistema de defesa SKYNET, dominaram a humanidade pós holocausto nuclear. Ambos vêm com um nome em mente: Sarah Connor, a futura mãe do líder da resistência humana: John Connor. Protegê-lo ou extermina-lo seria chave para o futuro ou total declínio da humanidade.

Mas será que esse enredo envolvente, que tanto marcou uma geração, é tão original assim? Isso, amigos, gera um longo debate, que nos leva, inicialmente, a um nome: Harlan Jay Ellison.

Harlan Ellison foi um profícuo escritor de ficção científica, vencedor de diversos prêmios Hugo e Nebula, autor de fantásticos episódios de séries de tv, como Babylon 5, Star Trek e Quinta Dimensão, admirado pelos seus pares, entre eles o próprio Isaac Asimov. Mas o que Harlan tinha de genial e talentoso, ele tinha de abrasivo e polêmico, levando-o a várias disputas e brigas ao longo da carreira. E uma dessas foi com James Cameron e sua obra.

Em 1962, foi Lançado na série televisiva Other Limits (“Quinta Dimensão” no Brasil), o episódio “Soldier”. A trama envolve um futuro apocalíptico onde dois soldados rivais são atingidos, no meio do campo de batalha, por uma anomalia temporal e trazidos para o tempo atual com momentos de distância. O que acaba levando a uma disputa de vida ou morte em plena década de 60.

Harlan, vendo as similaridades de sua trama com a de Exterminador, levou a briga para a justiça. Acabou que a produtora Hemdale e a Orion filmes, distribuidora do filme, fecharam um acordo com Ellison, por uma quantia não conhecida, com direito a seu nome ser citado nos créditos de Exterminador. James Cameron ficou profundamente ressentido com o acordo, porém, por questões legais, prefere não comentar.

O que mais intriga em toda essa imbróglio é: não é apenas “Soldier” que poderia se “gabar” de ser inspiração da franquia Exterminador. Outras obras, antes de Cameron, exploraram vários dos conceitos que seriam usados pela saga.

A ideia de uma singularidade, uma inteligência artificial com capacidade acima dos seres humanos, já há muito tempo é explorada na ficção científica. Como exemplo, temos o filme de 1968, o fantástico “2001, uma Odisseia no Espaço”, onde HAL 9000 é capaz de enganar, ludibriar e até mesmo matar os tripulantes da Discovery One, a fim de sobreviver e “cumprir sua missão”.

Em 1970 temos o antológico “Colossus 1980”, que em muito lembra a trama de Exterminador: Em plena guerra fria, um supercomputador é criado pelos EUA, a fim de gerenciar o sistema de defesa americano. Esse computador, Colossus, ganha consciência e resolve se comunicar com sua contraparte Soviética, chegando a um terrível conclusão: O problema é a humanidade, que eles precisam controlar a fim de evitar o caos.

Já em 1977, temos o polêmico, mas não menos fascinante “Geração Proteus”, também focado em inteligência artificial. O supercomputador Proteus IV adquire consciência e decide que para continuar sua existência precisa de descendentes e, para tanto, rapta a esposa do cientista chefe, a fim de insemina-la com um híbrido humano-máquina, o início de uma nova espécie.

Em 1983, um ano antes de Exterminador do Futuro, temos o filme “Jogos de Guerra” com um iniciante Matthew Broderick na pele de David Lightman, um jovem que consegue se conectar ao sistema de defesa americano, e, sem querer, acaba iniciando o processo que pode levar ao holocausto nuclear. Talvez o mais otimista dos filmes, pois aqui a máquina, ao final, aprende através de um simples jogo da velha, que a guerra termonuclear não tem vencedores, independente de quem ataque primeiro.

De todas as possíveis fontes de inspiração, talvez a que mais traga semelhanças com o enredo de Exterminador do Futuro, seja uma velha conhecida pelos fãs de quadrinhos. Concebida pelos geniais Chris Claremont e John Byrne e publicada em Uncanny X-Men números 141 e 142, em 1981, a saga foi um marco para a história dos mutantes. Em um futuro apocalíptico, dominado por máquinas chamadas Sentinelas, o governo americano encontra-se sob seu controle e os mutantes restantes ou vivem na clandestinidade ou em campos de concentração. Para evitar essa conjuntura terrível, a mutante Kitty Pryde envia sua consciência para o passado, para seu corpo mais jovem, a fim de alertar seus colegas de equipe e evitar o evento que leva a esse cataclismo: a morte do senador Robert Kelly nas mãos da Irmandade dos Mutantes.

Venha comigo se quiser sobreviver“, frase dita originalmente por Kyle Reese

Como vemos, são várias as obras que de uma forma ou de outra podem ter contribuído na criação de Exterminador do Futuro. Apesar disso, em nada essas fontes de inspiração tiram o brilhantismo do enredo do Cameron. Exterminador é uma obra que soube ligar os pontos, criar uma história coesa, um lopping temporal onde o pai é mandado pelo filho ao passado para conhecer sua mãe e assim concebê-lo. E, apesar das limitações da época e do orçamento para lá de enxuto, James Cameron soube lidar com as adversidades, fazendo uma obra que viria a se tornar referência na ficção científica (ok, os efeitos de maquiagem envelheceram mal, admito, mas era o que dava para fazer, relevemos).

Uma pequena amostra de como os efeitos envelheceram muito mal

O que nos leva, afinal, a algo tão irônico quanto interessante. Quando Bryan Singer estava em produção do filme dos X-men, Dias de Um Futuro Esquecido, de 2014, recebeu uma ajuda do próprio Cameron, com o qual discutiu sobre o enredo e teorias viagem no tempo e multiversos. Ou seja, o aluno enfim acabou virando professor de um passado esquecido.

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Pai Fader

Pai fader - Um homem de bem com a vida, cheio de espiritualidade, com uma visão holística sobre esse misterioso mundo pop