Ouvimos Power Up – O Novo Álbum do AC/DC!

“Estou de saco cheio de dizerem que fizemos onze álbuns que soam exatamente iguais”, disse, certa vez, o guitarrista Angus Young. “Na verdade, nós fizemos 12 álbuns que soam exatamente iguais”.

Chegou a hora de aumentar essa conta mais uma vez: o AC/DC lançou esse final de semana “Power Up”, seu décimo-sétimo álbum de estúdio. Essa conquista, no entanto, não foi possível sem uma boa dose de drama – algo que também não é exatamente novidade para o grupo.

Em 1980, eles lançaram “Back In Black” após a morte do lendário vocalista Bon Scott. O registro marcou não só a estreia de Brian Johnson, mas também se tornou um dos discos mais vendidos da história da música, colocando o quinteto no mesmo patamar de Led Zeppelin, Pink Floyd e Queen.

Para o atual lançamento, eles precisaram superar a saída forçada de Johnson, por problemas de audição, em 2016 (ele foi substituído por Axl Rose nas datas restantes da turnê). O guitarrista-fundador Malcolm Young faleceu no ano seguinte, após uma longa batalha contra a demência. O baterista Phil Rudd foi preso na Nova Zelândia por acusações de “planejar um assassinato”. O baixista Cliff Williams acenou com uma aposentadoria. Coronavírus, pandemia, quarentena. Não sabíamos mais nem se teríamos um mundo, quanto mais um AC/DC.

No entanto, isso foi pouco para detê-los. Após tratamento e uso de um aparelho auditivo, Johnson voltou para a banda. O sobrinho dos guitarristas, Stevie Young, assumiu a base. As acusações contra Rudd foram arquivadas, Williams deixou a aposentadoria de lado e Angus? Ele desenterrou algumas ideias que tinha gravado com seu irmão em 2008, as poliu e transformou em 12 novas canções para esse “Power Up”.

O disco, no geral, tem um pique mais lento e “comedido” que um álbum do AC/DC, mas absolutamente rock n’ roll. A faixa de abertura, “Realize”, soa perfeita para grandes estádios (se é que voltaremos a ter shows nesse formato). “Rejection” tem uma melodia cadenciada e energética e, novamente, os vocais de Johnson chamam a atenção quando ele segura as notas. Está em ótima forma. “Shot in the Dark” brinca com as influências de blues e de bares tão características da banda, com aqueles riffs insinuantes que marcaram os 16 álbuns anteriores. “Through the Mists of Time” também tem um trabalho muito interessante das guitarras, em riffs que vão chamando o público pra cantar junto, aumentando o volume (e o clima) da festa.

Mas é em “Kick You When You’re Down” que o trabalho de guitarra fica mais interessante. O riff é contagiante, eletrificado e poderoso, na medida certa, com muitos “oh, no!” vindos do fundo. Os anos 70 falam forte aqui. Seguimos com “Witch’s Spell”, outra clima que nós lembra “Who Made Who” ou “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”. A faixa seguinte, “Demon Fire”, é mais acelerada e, curiosamente, a menos interessante até aqui. “Wild Reputation” é aquela levada bluesy suja, típica da banda em sua fase setentista, mas com toda a produção que eles têm direito.

Seguimos com “No Man’s Land”, outra faixa com clima de blues, bares esfumaçados e muita cerveja. O encerramento do álbum é muito interessante, com a vigorosa “Systems Down”, a maliciosa “Money Shot” e a energia de “Code Red” (claramente reminiscente de “Back In Black”). São músicas com a assinatura do AC/DC e todas as características que fizeram uma banda de músicas iguais ser única. As músicas têm média de três minutos, que fazem o álbum passar muito rápido, com uma série de bons momentos mas nada particularmente “fora da curva” – até mesmo “Rock or Bust” teve mais momentos marcantes. Mas se considerarmos que é praticamente um álbum de sobras do “Black Ice”, o resultado é compreensível – basta ouvir o disco de 2008 pra entender porque essas músicas não tiveram espaço. É um registro digno da discografia da banda, com músicas cheias de clima e uma produção que, se em alguns momentos exagerou nos coros, conseguiu garantir a coesão dos integrantes.

O AC/DC passou sua carreira de maneira muito consciente sobre quem são e como devem soar, jamais desviando o foco ou perdendo tempo com qualquer coisa que não ressoasse de maneira correta. Aqui eles acertam de novo, ainda que não seja um clássico absoluto – é um ótimo disco de rock. Mais do que isso, um tributo digno a Malcolm Young. Talvez ainda dê pra tirar algo de bom de 2020, afinal.

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.