Os 50 Anos de Paranoid, do Black Sabbath!

Um dos maiores e melhores discos de rock/metal de todos os tempos. Um dos mais influentes, definindo o som e o estilo para todos que vieram depois. Uma obra-prima. O som do apocalipse. O som de um deus vingativo, o som de uma besta esmigalhando tudo em seu caminho. Nada mal para quatro garotos pobres do distrito industrial de Birmingham, que, no começo da carreira, não podiam sair juntos por revezarem roupas e calçados. O Popsfera orgulhosamente apresenta: os 50 anos de Paranoid, do Black Sabbath!

Apenas sete meses após seu lendário álbum de estreia, o Black Sabbath retornou às prateleiras das lojas com “Paranoid”, disco produzido por Rodger Bain – que também trabalharia com outras bandas de rock pesado, como Budgie e Judas Priest. Bain, que também trabalhou no primeiro disco da banda, os conquistou quando permitiu que “gravassem ao vivo”: todos os quatro integrantes juntos, no estúdio, tocando seus instrumentos como se fosse uma apresentação. Nada de takes infinitos, centenas de camadas e milhares de overdubs: apenas o que eles sabiam fazer de melhor.

Toda a gravação levou apenas seis dias – por que eram gênios? Não, porque era esse o tempo que eles podiam pagar para usar o estúdio. Se a necessidade é a mãe da criatividade, isso garantiu não só que eles tirassem o melhor de cada música, algumas escritas durante os meses em que excursionaram divulgando o primeiro álbum, mas mantivessem o foco. Isso os ajudou a completar o trabalho. Porém, faltavam uma música para finalizar o disco, e eles não tinham muito tempo para pensar a respeito. Iommi tocou um lick de guitarra que se transformava em um riff rápido e feroz, com Geezer escrevendo uma letra em cima dos improvisos de Ozzy. O processo todo levou, no máximo, 25 minutos. O resultado: o single “Paranoid”.

A primeira música que aprendi a tocar – na guitarra e no baixo. Ela é tão eficiente na sua simplicidade, quase como um Ramones sendo eletrocutado por um milhão de enguias, que não tem como ser ignorada. A simplicidade, a velocidade, tudo na medida certa. Desde a icônica introdução até o solo, nada é desperdiçado – por isso ela é tão curta. Iommi veio do jazz, mas ele sabia valorizar músicas curtas também.

“A letra é sobre depressão, porque eu não sabia direito a diferença entre depressão e paranóia”, explicou Geezer, anos depois. “Tem a ver com drogas; quando você fuma um baseado, fica completamente paranóico com as pessoas ao seu redor, não consegue se relacionar. Então é esse cruzamento entre a paranóia que você sente quando está fumando e a depressão que vem em seguida.” Acabou se tornando um dos singles mais bem sucedidos da carreira da banda, uma de suas marcas registradas e, tradicionalmente, o encerramento dos shows – mas ela só se tornou título do álbum por acidente.

O disco deveria se chamar “War Pigs” – o que faz muito mais sentido se pensarmos na figura que escolheram pra capa. Mas a gravadora não aceitou, temendo que o álbum fosse mal recebido nos Estados Unidos por conta da guerra no Vietnã. Curioso notar que a própria faixa “War Pigs” não devia ter esse nome: ela se chamaria “Walpurgis”, um ritual pagão que foi, por conta da perseguição do cristianismo, associado ao satanismo. “Eu queria falar que Satã não é uma coisa espiritual, mas sim pessoas que fomentam guerras”, explica o baixista Geezer Butler. “Esses são os verdadeiros servos de Satã, essas pessoas que controlam os bancos e corporações, tentando fazer com que a classe trabalhadora lute em suas guerras. Nós a mandamos assim para a gravadora, mas eles acharam satânica demais. Então mudamos o título para ‘Porcos da Guerra’.”

Eu nunca cansei dessa música. Seja dos riffs, a abertura com as sirenes avisando de um ataque aéreo que nunca chegava, os vocais de Ozzy intercalados com o poderoso batimento cardíaco – DOOM! DOOM! Mas o que eu sempre gostei mais é a melodia do solo de guitarra no final. Nenhuma das inúmeras regravações dessa música conseguiu captar com a mesma intensidade aquela magia – e olha que sou fã da versão do Faith No More! Mas não adianta, seja lá o que esses bruxos misturaram no caldeirão, foi algo único e memorável.

Outra faixa clássica que teve seu título alterado foi “Iron Man”: “Quando eu ouvi Tony tocando o riff pela primeira vez, fiquei em choque. Parecia um grande cara de ferro andando”, explica Ozzy. E esse foi o título inicial: “Iron Bloke”, o “cara de ferro”. O título foi alterado enquanto Geezer escrevia a letra: a história de um viajante do tempo que ia para o futuro e via o apocalipse; ao voltar para nossa época, ele é transformado em uma criatura de metal por um campo magnético. Suas tentativas de avisar às pessoas sobre o que viu no futuro são ignoradas e até ridicularizadas: ele fica furioso e, em sua ira, causa a destruição que tinha testemunhado no futuro.

Eu realmente achava que era sobre o Homem de Ferro da Marvel. Fazia bastante sentido quando olhávamos pra primeira armadura do herói nos gibis: cinza, pesada, rústica. Geezer Butler sempre foi fã de quadrinhos e ficção científica: mais tarde, em sua carreira solo, fez uma música chamada “Detective #27”, sobre o Batman, e “Among the Cybermen”, sobre Dr Who. Então, na minha cabeça, não é nem um pouco difícil imaginar que essa música narra uma batalha no tempo entre Tony Stark e Victor Von Doom, que se fundem no mesmo ser ao retornar!

Camelot!

A tétrica “Electric Funeral” também fala de visões apocalípticas e guerra nuclear. “Naquela época, um monte de hippies falava em colocar flores no cabelo”, lembra o guitarrista Tony Iommi. “A gente queria falar sobre o outro lado”. Ozzy completa: “Eu morava com mais cinco irmãos numa casa com dois quartos, meu pai trabalhava à noite e minha mãe durante o dia; não tinhamos dinheiro, mal tinhamos o que comer ou vestir. E de repente você começa a ouvir essa merda de ‘se vier pra San Francisco, coloque uma flor no seu cabelo’. Que merda é essa?”

Sempre que falam em “doom metal” pra mim, esse riff é a primeira coisa que me vem à cabeça. É um dos temas obscuros mais clássicos do Sabbath, aquele riff amplamente conhecido, mas raramente lembrado entre as músicas mais importantes da banda. Uma injustiça. “Electric Funeral” tem tudo que o Black Sabbath tem de melhor, encapsulado com o mesmo peso e melodia que fizeram deste álbum um marco.

As coisas saem um pouco do estilo tradicional do Sabbath em “Planet Caravan”, uma faixa calma e suave. Iommi admite que a banda tinha dúvidas sobre essa música, mas ela não era uma canção de amor tradicional. Era sobre viajar pelo universo ao lado da pessoa amada, com imagens de mundos distantes – então parecia algo adequado para eles, com uma forte influência de jazz, característica do guitarrista.

É uma música deliciosa de se ouvir, em sua melancolia abstrata. A exemplo de “Solitude”, do álbum seguinte, ela mostra um senso incomum (para os padrões do Black Sabbath) de harmonia e melodia. Até mesmo a voz de Ozzy é mais do que simplesmente acompanhar o riff de guitarra. Ela viaja cada vez mais longe, de maneira fúnebre, gótica e fria.

A sombria “Hand of Doom” é sobre soldados voltando da guerra do Vietnã e encontrando conforto no vício em heroína – que a banda testemunhou ao tocar em bases militares nos Estados Unidos. “Não havia nada nos jornais sobre isso”, explica Geezer. “Ninguém estava nos avisando que os soldados americanos, pra superar aquela guerra horrível, estavam se viciando.”

Uma das minhas preferidas, seja pelo tom com que Ozzy canta as linhas iniciais “What you gonna do? Time’s caught up with you”, seja pela porradaria desenfreada que ela se transforma, consumindo tudo e todos sob a pesada bateria de Ward. “You’re having a good time baby, but that won’t last” é algo pra ser gritado a plenos pulmões, com o volume no 11 e o teor alcoólico nas nuvens.

O disco também tem um violento solo de bateria de Bill Ward em “Rat Salad”. O título, uma brincadeira com o cabelo despenteado de Ward, parece combinar com a fúria com que ele espancava as peles – um contraste gigantesco com o simpático cavalheiro que ele sempre foi no dia-a-dia. O disco termina com “Fairies Wear Boots”, uma viagem psicodélica de Ozzy sobre um encontro com skinheads que acabou muito mal pra ele.

Eu nunca gostei muito de “Fairies Wear Boots” até anos mais tarde. Ela me parecia ingênua, encerrando o álbum sem o mesmo peso das músicas anteriores. Mas é ouvindo com atenção (e não simplesmente deixando o disco rodar) que eu percebi as nuances escondidas ali. Há uma mistura de psicodelia e medo, como um pesadelo sendo contado para crianças, que a transforma em algo tão medonho quanto as crianças cantando “one, two, Freddy’s coming for you” nos filmes de Freddy Krueger.

AMSTERDAM, NETHERLANDS – DECEMBER 04: Black Sabbath perform live on stage at Paradiso in Amsterdam, Holland on December 04 1971 L-R Geezer Butler, Tony Iommi, Ozzy Osbourne (Photo by Gijsbert Hanekroot/Redferns)

Se você ouviu o álbum com atenção, ou se leu até aqui, percebe o quanto as letras são atemporais. Universais, até. Elas falam contra as guerras, contra o abuso de drogas (o que soa meio hipócrita, considerando o histórico da banda). São sobre as trevas que cobrem o mundo, a necessidade de fuga, sobre medo, horror e desespero. O Black Sabbath era a única banda escrevendo músicas contra as guerras – ou contra o establishment – no começo dos anos 70. Mas eles faziam isso de maneira furiosa, inconformada. Stress pós-traumático e holocausto nuclear são temas espalhados pelo álbum – ironicamente, uma de suas músicas mais conhecidas é sobre alguém tentando avisar o mundo dos perigos que o futuro nos reserva, sendo ridicularizado por isso, e então tentando espalhar sua mensagem com cada vez mais fúria.

Isso torna “Paranoid” o álbum quintessencial do metal – não importa que os americanos queiram roubar os créditos e entregar para “Master of Puppets”, do Metallica. Não haveria Metallica sem Black Sabbath. Não haveria heavy metal, thrash metal, death, black, doom – ou até mesmo o glam metal californiano dos anos 80 – sem o pioneirismo de quatro moleques pobres e fodidos de um bairro operário, sem perspectiva e sem dinheiro. Eles só tinham riffs de guitarra.

Era tudo que precisavam.

Black Sabbath – “Paranoid”
Produzido por Rodger Bain

Ozzy Osbourne – vocal
Tony Iommi – guitarra, flauta em “Planet Caravan”
Geezer Butler – baixo
Bill Ward – bateria, congas em “Planet Caravan”

Todas as músicas escritas e arranjadas por Iommi, Ward, Butler e Osbourne

  1. “War Pigs”
  2. “Paranoid”
  3. “Planet Caravan”
  4. “Iron Man”
  5. “Electric Funeral”
  6. “Hand of Doom”
  7. “Rat Salad” (instrumental)
  8. “Fairies Wear Boots”

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.