Os 40 anos de Highway to Hell, do AC/DC

AC/DC sempre foi espetacular.

Sempre.

Mesmo com essas roupas

Não há o que questionar sobre a época gloriosa da banda, que se iniciou com a entrada do vocalista Brian Johnson e a gravação de “Back in Black”, um dos discos mais vendidos da história – ou até mesmo sobre o breve período em que foi substituído por um surpreendentemente focado e respeitoso Axl Rose, durante a turnê “Rock or Bust”.

Mas pra mim, o AC/DC sempre foi Bon Scott.

Não me entenda mal, popnauta. Eu não sou um saudosita, até porque não sou tão velho pra ter conhecido a banda com seu vocalista original. O primeiro disco do AC/DC que tive contato foi o “The Razor’s Edge”, de 1990 (um disco fantástico, é bom que se diga). Mas foi em um programa de clips da TV aberta que eu vi pela primeira vez Bon Scott com a banda, no vídeo de “Jailbreak”. E aí eu fui fisgado.

Mas quem diria não a esse homem?

O coração com que ele cantava, a maneira desleixada e, ao mesmo tempo, absolutamente vigorosa, entregando cada nota, cada grito, com o mais puro espírito do que eu entendia que era o rock n’ roll… Tudo isso deixou uma imagem muito forte, do que o AC/DC deveria sempre ter sido – mas foi interrompido pela trágica morte do cantor.

Por mais que eu goste de Brian Johnson e dos excelentes discos que ele gravou, o mais próximo que eu senti da energia de um “Appetite for Destruction”, ou de um “Van Halen I”, foi quando eu finalmente consegui pegar uma cópia de “Highway to Hell” emprestada. O disco, que faz 40 anos esse ano, tem tudo que uma grande banda de rock deve ter, na medida certa – desde que você ouça com o volume bem alto e devidamente alcoolizado ¹.

Sem esse disco, não haveria nem Popsfera hoje

A abertura com a faixa-título é uma das mais marcantes e emblemáticas não só da carreira da banda, mas da própria música ocidental, sendo ainda obrigatória em todos os shows. “Girls Got Rythm” mantem o clima descontraído, mas em “Walk All Over You” os riffs ficam mais pesados, o refrão cadenciado é ameaçador e o solo de Angus Young é… Bom, igual os outros, como tem que ser. Rápido, cortante e de uma ferocidade implacável.

“Touch Too Much”, infelizmente, tem pouco espaço em turnês recentes, porque é uma canção ótima para se ouvir ALVI VAÇO. “Beating Around the Bush” vem na sequência, pesada, elétrica e com ótimos riffs. Dá saudade do falecido Malcolm Young. Em “Shot Down em Flames” Scott nos mostra novamente porque é tão difícil de ser esquecido. Qualquer cantor precisa acompanhar essa performance para entender qual é o seu papel à frente de uma banda.

Em seguida, um andamento mais suave, tanto quanto é possível para um disco do AC/DC, em “Get it Hot”, que só nos prepara para o massacre que vem em seguida. “If You Want Blood (You’ve Got It)” é absurdamente festeira, tomando o título do primeiro registro ao vivo da banda. E exatamente essa energia que é transmitida aqui, não só por Scott ou os irmãos Young, mas pela banda toda: o lugar do AC/DC é no palco.

ou NAS RUAS

“Love Hungry Man” tem alguns belos acordes, mas aqui a peteca cai. Descrita pelo próprio Angus Young como “a pior gravação” que ele já fez, a gente releva porque é difícil se estabelecer no meio de tantas músicas com essa intensidade. O final, com “Night Prowler”, volta a ter mais a cara e a personalidade do AC/DC. Um blues enebriante e esfumaçado, com Scott vociferando maldade e a banda prestes a mostrar que beberam das fontes corretas, pode não ser tão rápida e rock n’ roll, mas fecha perfeitamente a fase do vocalista. “Someone walks across your grave” e uma era se encerra.

(Infelizmente, a faixa também ficaria marcada pela polêmica por ser a preferida do serial killer Richard Ramírez, fã da banda declarado e que recebeu o apelido de “Night Stalker”).

O AC/DC é uma daquelas raras unanimidades dentro do rock, sendo influência até mesmo para muitos músicos de thrash e death metal, não se afastando jamais das suas origens e sempre mostrando uma energia capaz de fazer corar os novatos do nu metal. Se o grande reconhecimento comercial só veio no ano seguinte, “Highway to Hell” é o perfeito resumo de tudo que a banda e sua música representam, permanecendo como um dos melhores discos da história do rock. Nada mal para um quarentão, não é mesmo?

Eternamente dentro dos nossos corações

Bon Scott – vocal
Angus Young – guitarra
Malcolm Young – guitarra, backing vocals
Cliff Williams – baixo, backing vocals
Phil Rudd – bateria

  1. “Highway to Hell” – 3:29
  2. “Girls Got Rhythm” – 3:24
  3. “Walk All Over You” – 5:10
  4. “Touch Too Much” – 4:28
  5. “Beating Around the Bush” – 3:57
  6. “Shot Down in Flames” – 3:23
  7. “Get It Hot” – 2:35
  8. “If You Want Blood (You’ve Got It)” – 4:38
  9. “Love Hungry Man” – 4:18
  10. “Night Prowler” – 6:27

Ouça no Deezer: https://www.deezer.com/album/9410086?autoplay=true

¹ = Beba com moderação, popnauta! 😉

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.