O vírus Legado e os dias atuais

As epidemias mundiais, causadas por agentes biológicos ou qualquer outra fonte de disseminação, sempre foram tema recorrente dentro de praticamente toda mídia de entretenimento.

Nos games temos Resident Evil, nos quadrinhos tivemos The Walking Dead, uma extensa lista de filmes sobre o tema…

Dentro da Marvel Comics nós já tivemos muitos vírus causando problemas, como o Extremis, o vírus tecnorgânico e até um vírus zumbi. Mas nenhum deles foi tão famoso quanto o vírus Legado.

Os X-Men, criados por Lee e Kirby, sempre foram uma metáfora para que a Marvel pudesse lidar com a questão do preconceito contra as minorias. Imigrantes, negros, gays… todos já foram representados dentro das HQ’s dos mutantes.

Após apresentar a ideia com sua primeira classe de mutantes, a Marvel foi além e, em sua segunda classe, montou um time de estrangeiros, contando inclusive com um russo em plena guerra fria nos anos 80 e um japonês, etnia que não era muito popular em solo americano desde Pearl Harbor. Essa fórmula se repetiria na terceira classe, os Novos Mutantes, onde até um brasileiro teve sua chance de brilhar.

Primeira e segunda classes sempre enfrentando o preconceito

Mas, no começo da década de 90, o mundo se deparava com uma ameaça inédita: um vírus mortal que atacava um grupo específico não muito aceito pela população em geral, que por sua vez se sentia totalmente imune à infecção e com uma parte dela até comemorando a dizimação desse grupo, uma atitude que deve envergonhar muita gente até hoje e que infelizmente se repete em nosso momento atual, com um velado discurso de que o vírus Covid-19, o Coronavirus, só ataca idosos.

Eu estou me referindo ao vírus HIV e a doença que ele causava, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a SIDA. Ou AIDS, na sigla em inglês.

Quando o preconceito contra os portadores desse vírus atingiu níveis estratosféricos , o escritor Scott Lobdell criou o VÍRUS LEGADO.

A versão resumida é a seguinte: Apocalipse criou, num futuro distante, um vírus para exterminar os humanos. Mas Conflito rouba e manipula esse vírus para que ele ataque apenas os mutantes. Ele vem para o nosso presente para confrontar Cable e morre na batalha. Mas o vilão havia deixado uma valise contendo “2000 mil anos de material genético da linhagem Summers” com um cientista cujo nome não me lembro. Quando ele abre a valise, ela está aparentemente vazia. O vírus legado estava no ar. Esse arco se chama A Canção do Carrasco e foi publicada por aqui pela editora Abril no maravilhoso X-Men Gigante #1.

Panini, republica isso!

Muitos mutantes foram afetados. Dentre as baixas mais famosas, podemos destacar Pyro, Mestre Mental e Illyana Rasputin, a Magia, irmã de Colossus. Feral e Avalanche sobreviveram ao vírus. A morte de Illyana provocou um dos melhores momentos da história dos X-Men, quando Colossus, revoltado, questiona os métodos do Professor Xavier, muda de lado em plena batalha e diz que se ele tivesse seguido Magneto desde o começo, talvez sua irmã estivesse viva. Publicada originalmente em Uncanny X-men #304, saiu aqui em X-Men Gigante #2 pela editora Abril e foi republicada pela editora Panini. Não dá pra esquecer isso, não…

Gibi maior que editoras inteiras.

A cura para a praga mutante só foi atingida após humanos passarem a ser afetados também, em mais uma metáfora à vida real. Os infectados com HIV enfrentavam enormes dificuldades para conseguirem tratamento e medicamentos, situação que só melhorou após a doença se espalhar e atingir classes sociais até então livres de seu avanço. Para uma maior compreensão desse quadro, recomendo o sensacional filme CLUBE DE COMPRAS DALLAS, vencedor do Oscar e baseado em uma história real.

Filmaço! Aquele ali é o Coringa, você sabe qual dos dois…

Após Moira MacTaggert ser infectada, ela, humana, passa a pesquisar a procura de uma cura. Antes de terminar seus estudos, ela é morta por Mística. O Professor Xavier consegue extrair da mente de Moira informações cruciais para a continuação dessa pesquisa, que é completada com sucesso por Hank McCoy, o Fera, nosso cientista mutante especialista em tudo. Infelizmente, para que a cura pudesse completar seu ciclo de evolução, o primeiro hospedeiro deveria morrer. Em mais um grande momento desse X-Man extraordinário, Colossus injeta a cura em si mesmo, dando a sua vida para que as raças mutante e humana pudessem viver em paz.

É engraçado notar que quando Colossus volta à vida, os mutantes já estão enfrentando uma outra forma de preconceito: a geneticista Kavita Rao alega que o gene X é uma doença e ela tem a cura mutante. Mas essa é uma história para outro dia.

Infelizmente, em tempos de Covid-19, é possível nos deparar com o mesmo preconceito de outrora, dessa vez direcionado aos idosos. Erros retratados em nossos gibizinhos – que já haviam sido inspirados na vida real – sendo cometidos novamente, com nações não dando a devida atenção ao problema, usando até um pouco de descaso em alguns exemplos muito próximos.

É um momento de união. Um momento de cuidarmos dos nossos e também dos próximos a quem pudermos ajudar, ainda que uma das medidas mais importantes para frear o avanço desse vírus seja o isolamento. Sempre usarmos máscaras, higienizar as mãos em uma frequência maior do que a normal. Álcool em gel, ou álcool 70%, são bons, mas água e sabão são bastante eficazes também.

Porque, infelizmente, apenas nos gibis a morte tem solução.

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