O Exterminador do futuro 3 e seus mais erros que acertos

Em 1984, chegava aos cinemas um filme chamado O Exterminador do Futuro (leia aqui a matéria do Pai Fader), dirigido por James Cameron. Nele fomos apresentados a um futuro distópico em que as máquinas haviam tomado o controle do planeta e os humanos viviam à margem da sobrevivência. Um filme inteligente, com personagens cativantes, muito bem escritos e, sobretudo, um vilão assustador como poucos na história da sétima arte – O T800 Arnold Schwarzenegger.

Cameron realizou uma continuação que conseguia ser ainda melhor do que o original, trazendo logo de cara um plot twist e transformando o vilão T800 em herói (e que herói!). Junte a isso um novo vilão que não devia nada a seu antecessor no quesito periculosidade. (O T1000 – Robert Patrick – nos parece ser um inimigo imbatível). Em ambos os filmes, tínhamos a nítida impressão de que a vitória era algo impossível para os protagonistas – que, por sua vez, eram personagens complexos e interessantes. Infelizmente, O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas (Terminator 3: Rise of the Machines, 2003) representa um balde d’agua fria nos conceitos e na qualidade imprimida nos dois primeiros filmes.

#PartiuEnterrarFranquia

No que o filme fracassa?

Vamos começar com Claire Danes na pele de Katherine (Kate) Brewster, o interesse romântico de John Connor. Claire é boa atriz, mas sua atuação neste filme não tem um pingo de carisma. Seu papel deveria representar um plot inesperado como a futura esposa do líder da resistência humana no futuro, mas falha miseravelmente.

A vilã do filme, a Terminatrix, ou TX, nem de longe passa o mesmo tom ameaçador dos seus antecessores. Kristanna Loken é uma bela mulher, mas sua atuação, talvez por conta da direção ruim, acaba por coroar a falha de construção de seu personagem, começando como uma bomb shell sensual, passando para a ameaça sem sal – e sem nos transmitir em nenhum momento a ideia de ser um grande problema para os heróis. Pergunte na rua se alguém se lembra do vilão de Exterminador 3 e a maioria terá de se esforçar para lembrar.

Ex-mulher do Schwarzenegger deu mais trabalho que ela

O roteiro do filme, assinado por Michael Ferris e John D. Brancato é raso. Uma ou outra sacada interessante, como o fato da programação do T850 ser diferente da do T800, mas sempre deixadas em segundo plano ou mal aproveitadas no decorrer da trama.

Jonathan Mostow, o diretor, procura desviar a atenção do espectador para que este não note as falhas no roteiro com cenas de ação muito bem executadas. Infelizmente não é o bastante. Aqui a franquia mostra a dependência da mão e do olhar de Cameron atrás das câmeras. Não há nem como comparar.

“Mais uma vez, só que agora com SENTIMENTO!”

A trama do filme introduz novos conceitos a respeito da Skynet totalmente contraditórios aos elementos principais dos dois primeiros longas, tornando todos os fatos, batalhas e esforços de Sarah e John Connor (Linda Hamilton e Edward Furlong) junto ao T800 em O Exterminador do Futuro 2 (leia aqui a matéria do Daniel Dreadstar) para destruir a Cyberdine e evitar o Dia do Julgamento, em eventos sem nenhuma importância e até equivocados. O filme simplesmente mostra que tudo foi inútil. Quando vemos John Connor (Nick Stahl), agora com seus vinte e poucos anos “descobrindo” a inevitabilidade de tudo que fizeram, é constrangedor para aqueles que se perguntam: – se era mesmo isso, porque seu pai, o soldado Reese (Michael Biehn, perfeito no primeiro filme e até mesmo o T800 (no segundo) não o alertaram antes? Um dos trunfos dos dois primeiros filmes foi tentar passar a mensagem de que o futuro é construído a cada dia, cada minuto e segundo. Já neste, essa visão é jogada no lixo e substituída em prol de uma visão de futuro realmente predestinado, de inevitabilidade dos acontecimentos.

“Se a gente ficar bem quietinhos, eles vão embora?”
“Quem, os Exterminadores?”
“Não, os fãs da franquia.”

Mas o grande fracasso de O Exterminador do Futuro 3 está no personagem-título: depois de se transformar em uma figura complexa e comovente no filme anterior, nos fazendo torcer e até chorar no final, o T800, agora na versão T850, se torna praticamente um coadjuvante. Não há, aqui, nem sombra da química e do dinamismo entre o androide e seus protegidos – elementos que fizeram de O Julgamento Final um dos maiores filmes de ação do século 20. Como se não bastasse, o Exterminador age de maneira contraditória: em certo momento, por exemplo, ele esclarece não ser o mesmo androide visto anteriormente, mas apenas um outro exemplar da mesma linha, porém, ele evita matar humanos e, em outra cena, abre o quebra-sol de um carro para procurar as chaves do veículo exatamente como sua “versão anterior” no segundo filme! Mais uma das pataquadas dos roteiristas.

O que se salva do personagem é puramente associado à Schwarzenegger. Astro irretocável que mesmo sem ser um gênio shakespeariano, lota de carisma todas as suas aparições em cena (e são muitas). Se o personagem fica devendo muito à suas encarnações passadas, nada fica na conta do Schwarza.

Mas nem tudo é perdido no roteiro. Talvez o maior acerto seja o personagem John Connor, incrivelmente bem escrito num mar de ruindade. Traumatizado e deprimido, o rapaz é um personagem fascinante, já que se mostra amargurado pelo fardo de seu destino: ser alguém que ainda não é e que para se concretizar, o mundo como conhecemos deve chegar ao fim, levando milhões de pessoas à morte em chamas. O personagem reflete o que foi Sarah Connor no filme anterior. Quem dera o restante da produção acompanhasse a ideia da construção do personagem e a boa vontade de Arnold.

Quem dera!

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Fabiano Souza

CAPITÃO no meio campo, escreve textos e destrói falsos deuses antes do café da manhã