Naomi – Primeira Temporada!

Em 2017, quando foi anunciado que o roteirista Brian Michael Bendis estava trocando a Marvel pela DC Comics depois de 17 anos de muitos trabalhos seminais, a grande questão levantada foi que tipo de colaboração ele traria para o Universo DC.

Bendis gosta de brincar com a cronologia – à sua maneira. Aproveita o que é bom, passa por cima do que não gostou e foca em entregar a melhor história possível. Muitas vezes, isso significa ignorar eventos passados ou alterá-los para que se encaixem na sua visão, e isso é frequentemente criticado. O grande problema com essa crítica é que ela cai por terra assim que Bendis entrega sua história. Conceitos antigos ganham uma sobrevida, suas novas criações estão alinhadas com os tempos atuais e, por mais que rendam polêmicas, suas mudanças acabam por ser extremamente positivas nos títulos por onde passa.

Já a DC Comics tem uma cronologia, por natureza, mais flexível. Suas crises e reboots possibilitam que períodos cronológicos inteiros sejam revistos, esquecidos ou recontados – nas mãos de Bendis, é terreno fértil para histórias que irão para o passado, o futuro, outras terras, realidades alternativas e, por que não?, brincar com o conceito das crises.

Naomi, publicada esse mês pela editora Panini, é um perfeito exemplo. Ele explora a Guerra Rann-Thanagar, traz coadjuvantes para o centro do palco, cria uma personagem nova que é complexa, cativante e atual, passa seis edições colocando as peças no tabuleiro para uma batalha (relativamente) curta e, no final, entrega um novo e maravilhoso ponto de partida.

Mas essa não é sua a maior qualidade.

A coisa mais latente em seus textos, desde o início da carreira, é como Bendis consegue tornar os personagens humanos, com reações humanas, mesmo diante do fantástico. Longe da pretensão de Straczinsky ou da limitação de Loeb, os personagens têm vozes próprias, emoções factíveis e reações compreensíveis. Seus trabalhos mais pessoais transbordam dessas características.

É o caso de Naomi: um gibi que começa com uma cena de ação em página dupla de Superman enfrentando Mongul em uma pequena cidade americana, desdobrando-se em outras cinco edições de… pessoas. Seres humanos. Gente como a gente, levando vidas normais, agindo de maneira normal – ainda que alguns deles guardem segredos assustadores. Bendis – pai de duas garotas adotadas, de origem africana – conta a história da adolescente que convive muito bem com seus pais adotivos, mas começa a questionar se eles não sabem mais do que estão contando. Os segredos e mentiras sob os quais Naomi vive atravessam não só a galáxia mas também o multiverso.

A história, de modo geral, é bem leve. Nada de crimes hediondos, sexo, conspirações governamentais – apenas pais preocupados (e um “tio”) querendo manter uma menina à salvo de algo que pode ser muito, muito perigoso. Tudo perfeitamente integrado ao universo DC, sua mitologia e sua cronologia (Bendis tem sido surpreendentemente respeitoso com diversos aspectos da casa, mostrando que não trocou de camisa pra viver de polêmicas gratuitas ou escrevendo no modo automático).

Acabei descobrindo que Naomi é a primeira heroína negra da DC a ter seu próprio título. Novamente, Bendis é o mais indicado para conduzir algo assim, pela sua própria história de vida e pela sensibilidade com que lida com o assunto adoção. Escrito em parceria com David F. Walker, nós temos aqui todos os tópicos de diversidade e inclusão que permitem não só silenciar o tipo de crítico que não lê história e só procura algo pra cancelar, como também entregar elementos que tornam um gibi agradável.

Claro, as ilustrações de Jamal Campbell enchem os olhos, com cores mais leves e que combinam com o tom positivo e otimista da história. Pouco comentado na mídia especializada, assim que anunciou sua ida para a DC, Bendis ficou gravemente doente por conta de uma infecção por algum tipo de super-bactéria. E quando eu digo “gravemente”, é “gravemente” nível “cego por quatro dias e desenganado pelos médicos”. Bendis achou que ia morrer, mas começou a debater com seu amigo pessoal Walker as ideias para o gibi da Naomi. Recuperado, temos mais coração nessa história do que em metade da produção das grandes editoras atualmente.

Um gibi que dá o pontapé inicial em um novo e excitante capítulo do Universo DC, escrito com maestria, talento e uma história de recuperação impressionante. Naomi não é aquele divisor de águas na indústria (como o próprio Bendis já fez com Ultimate Spider-Man e New Avengers): é apenas um ótimo gibi.

Eu não esperava menos dele.

Você pode comprar Naomi – Primeira Temporada na Loja Panini ou na Amazon.

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.