Mundo Gavião – a Origem do Gavião Negro para os Anos 90

ATENÇÃO: este review de uma história publicada há quase TRINTA ANOS contém spoilers!

Após Crise nas Infinitas Terras, a DC Comics promoveu uma mega-reformulação em seu panteão de personagens, entregando suas principais franquias a algum dos maiores nomes disponíveis no mercado: Frank Miller ficou com o Batman, John Byrne com o Superman e George Pérez com a Mulher Maravilha.

Outros personagens não foram esquecidos e, talvez o que mais se beneficiou na hora de escolher uma equipe criativa, foi o Gavião Negro. Ainda que demorasse um pouco até sua reformulação (a primeira edição chegou às bancas somente em agosto de 1989), a equipe criativa de Timothy Truman (roteiro e desenhos), Enriqué Alcatena (arte-final) e Sam Parsons (cores) entregou uma das reformulações mais bem-conduzidas do pós-Crise, perfeitamente alinhada com o nível de exigência de leitores que puderam acompanhar material como Cavaleiro das Trevas e Watchmen.


As onomatopéias também eram muito boas!

Na virada da década de 80 pra 90 eu já lia bastante coisa, mas tinha um material que me impactava bastante: o Justiceiro e o Demolidor, da Marvel, além de Homem-Animal e Monstro do Pântano, da DC Comics. As histórias tinham um clima diferente, eram um nível de história-e-arte acima dos gibis mais populares, mesmo do Batman (exceto quando se tratava de alguma graphic novel, como Asilo Arkham ou Piada Mortal). Hoje eu vejo que a reformulação do Gavião Negro teve um impacto ainda maior no meu senso crítico para quadrinhos, sendo algo que dificilmente seria aceito pelos editores de hoje.

Em Hawkworld (intitulada simplesmente Gavião Negro no Brasil), mais do que conhecer a origem do herói, nós somos apresentados ao longínquo planeta Thanagar, um mundo com uma porção de terra relativamente pequena em comparação aos seus vastos oceanos. Assim, as cidades cresceram para o alto, em gigantescas e majestosas torres. Como uma forma de se locomover mais rapidamente (e de maneira mais excitante) entre elas, o cientista Paran Katar desenvolveu asas artificiais a partir do misterioso “metal enésimo”.

O que a gente não vê do alto das torres brilhantes de Thanagar é o que se passa “do lado de baixo”: um povo beligerante e conquistador por natureza, os thanagarianos escravizam os povos conquistados e os amontoam aos milhões em guetos e cortiços no chão, onde o tráfico de drogas, contrabando de armas e o crime crescem fora de controle. Para tentar conter os ânimos, é criada a força policial conhecida como “Homens Alados”, agentes da lei e da ordem de Thanagar, munidos de armas (tanto de fogo quanto brancas) e as famigeradas asas.

Entra em cena Katar Hol, o filho do renomado cientista Paran Katar, que, ao invés de escolher uma vida burocrática nas torres, resolve ser um herói como nos antigos livros de história thanagarianos. Porém aos poucos ele percebe que a política de seu mundo para com os povos conquistados é opressora, injusta e cruel, levando-o a questionar se realmente está do lado certo, ideologicamente. Mas Katar é jovem, um pouco presunçoso e não se furta de alguns dos prazeres que sua posição social lhe oferece, como sexo e drogas. 


Nosso jovem herói, já loko na problematização.

Antes que perceba, então, Katar é envolvido em uma conspiração que joga o nome de sua família na lama quando o cientista Paran Katar é revelado como um traidor, que vendia drogas e armas para os conquistados do lado de baixo; numa armadilha cruel, Katar Hol mata o próprio pai e é incapaz de provar sua inocência, sendo submetido a um julgamento que o priva das asas, da liberdade e até mesmo de alguma chance de defesa.

É quando chegamos a um dos momentos mais impactantes, não só dessa mini-série como da própria história dos Quadrinhos como mídia. Não, não basta o protagonista e um dos heróis mais clássicos da editora ser um viciado que matou o próprio pai com um tiro, a DC Comics não tinha medo em mexer com seus personagens contanto que as histórias valessem a pena.  

O que Truman propôs foi muito arriscado e corajoso, mas os editores foram ainda mais corajosos em aceitar.


“Você começa aceitando apelidinho e daqui a pouco tá fora da cronologia.”

O sistema legal thanagariano condenou Katar Hol à Ilha de Chance: uma ilha pequena e remota, onde ele poderia caçar ou plantar para sobreviver, não importa. Dali em diante, ele estava à mercê de seu próprio destino e escapar em uma jangada seria impossível, visto que a ilha era cercada por gigantescos monstros marinhos.

Mas ele não estava sozinho. Outros condenados eram dois irmãos, monges de aparência símia, de algum dos muitos mundos conquistados pelos thanagarianos. Eles não falavam com Katar e o thanagariano não se aproximava deles. Até que um dia…

Katar percebeu que um dos monges estava confeccionando um par de asas primitivo, usando galhos e penas de aves. Não teve dúvidas: esperou ele avançar na construção das asas e, com uma pedra enorme, esmagou sua cabeça, matando-o a sangue frio.

O outro monge se aproximou, muito tranquilamente, mesmo sob as ameaças de Katar, ensandecido pela síndrome de abstinência. Ele gritava e ameaçava, disposto a qualquer coisa para fugir dali, matar as pessoas que o incriminaram e o levaram a assassinar o próprio pai, e provar sua inocência. O Monge ergueu a túnica de seu irmão morto, proferindo cinco palavras que não só o fizeram baixar a guarda como também transformaram minha percepção de quadrinhos de super-heróis:

“Ele as fez para você.”


Não mostrado na imagem: minha cara de WTF!?

Eu lembro que parei a leitura, larguei o gibi aberto por alguns instantes nessa página e fiquei tentando assimilar o golpe. Aquilo era diferente. Um herói que eu conhecia melhor do desenho Superamigos do que dos próprios quadrinhos já tinha uma contagem de corpos respeitável DENTRO DA SUA HISTÓRIA DE ORIGEM. Claro, eu lia diversos outros gibis que eram bastante violentos, alguns até de maneira gratuita e bem pouco inspirada. Mas não eram as mortes, em si. A questão é que um membro da Liga da Justiça e ele SÓ TINHA MATADO INOCENTES. Era um VICIADO e PARRICIDA, e tinha acabado de matar UM MONGE.

PELAS COSTAS!

À TOA!

Era óbvio que eu não ia parar a leitura aí.

Katar consegue limpar seu corpo, sua mente (seu espírito?). Quando a pena termina, ele é levado de volta e jogado no lado de baixo, junto com os rejeitados pela política xenófoba de Thanagar. De lá, ele precisa escalar seu caminho de volta para as Torres e provar sua inocência, sem apoio nenhum além de diferentes espécimes alienígenas e daquela que se tornaria sua parceira e esposa: Shayera Thal, a Mulher Gavião.


“Mulher-Galinhão é meuzovo!”

A mini-série foi continuada em uma revista mensal, também escrita por Truman, que mostrava o herói vindo para a Terra atrás de um criminoso de seu mundo e se adaptando à cultura e aos métodos de combate ao crime daqui. Chama especialmente a atenção a edição em que ele lê a constituição dos Estados Unidos e pergunta, impressionado: “Mas vocês não contam pra pessoas que elas têm todos esses direitos, né? Porque esse documento é perigoso demais. A população não pode nem imaginar que tem tantas leis à favor delas!”

Infelizmente, a bagunça da cronologia da DC Comics tornou essa fase incompatível com séries que saíam simultaneamente, como a Liga da Justiça Internacional e Invasão! – todas elas mostrando o Gavião Negro pré-Crise, antes da reformulação de Truman. Com o tempo, ela foi varrida pra debaixo do tapete e misturada com outras versões – que também eram incoerentes não só na cronologia da editora como incompatíveis entre si. Muitos roteiristas vêm tentando, ao longo dos anos, organizar a linha do tempo do personagem – a versão mais recente foi na mini-série Noites de Trevas: Metal, lançada aqui no ano passado. Mas todas mostram uma versão mais retrô do Gavião Negro, nunca tão ousada quanto a de Mundo Gavião, onde, em sua jornada, o herói cometeu muitos erros e crimes, sim – mas em nenhum momento isso foi tratado de maneira leviana, com uma explicação absurda do tipo “irmão gêmeo malvado” ou, a preferida dos autores atuais, “ele estava possuído e sem controle de suas ações”. Ele encarou a responsabilidade por seus atos, pagou por eles e precisou enfrentar o julgamento moral de seu próprio coração para se tornar um herói. Uma jornada tortuosa, ousada – mas muito mais realista do que qualquer outra coisa já feita com o personagem.


Até porque, né.

Avalie a matéria

Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.