Legion 3ª Temporada – Um Final Mais Que Acertado

Foram disponibilizados na Netflix, no último dia 15/07, os derradeiros 8 episódios da série Legion, parceria entre o canal FX e a Marvel Television, fechando com chave de ouro a proposta ousada de Noah Hawley para essa “ala” do universo dos X-Men.

Para quem esperava um início frenético devido aos eventos do último episódio da segunda temporada, Legion surpreendeu novamente ao trazer, durante grande parte do capitulo, apenas uma adolescente chinesa, destacada pela ótima fotografia e direção, e um ambiente hippie. Alias, como em suas antecessoras, a terceira temporada tem como marca a imprevisibilidade. Se trata de uma viagem psicodélica, complexa e sobretudo nonsense sobre traumas, romances e outros dramas da mente, com jogos de câmera impressionantes, musicais com coreografias hipnotizantes, takes em stop motion, cenas mudas, monólogos e muita viagem.

Já no poster começa a viagem


A adolescente chinesa é Switch (Lauren Tsai), que descobrimos ser uma viajante temporal. Solitária e sofrendo de carência afetiva paterna, atende ao chamado de uma seita.

David (Dan Stevens) lidera essa seita, espalhando amor e calma em forma de droga, acompanhado por Lenny (Aubey Plaza, de certa forma, um dos pontos fracos da temporada, pois seu personagem fica meio avulso e, por isso, acaba “descartado”). A seita funciona como um escape tanto para o complexo de solidão e desamor quanto o complexo de salvador presentes no protagonista, que desde o início da narrativa, já sabemos não se tratar propriamente de um herói.

Muito pelo contrário.

Lições sobre viagem no tempo…


O plano de David é retornar ao passado e consertar os eventos que o levaram à loucura, porém o acompanhamos mergulhar ainda mais fundo em sua neurose. Se anteriormente seus crimes eram justificados por suas boas intenções e pelo fato de que ele foi uma vítima do Rei Das Sombras (Navid Negahban) durante toda sua vida, agora ele também tem a possibilidade de voltar no tempo e desfazer quaisquer crimes que ele tenha cometido, ainda que não se julgue culpado.

Sob esse ponto de vista, matar e manipular quem quer que seja para alcançar seu objetivo é plenamente justificável, já que teoricamente nenhum desses delitos será cometido na nova linha temporal.

Esse ponto da(s) personalidade(s) do personagem é muito explorado nesta temporada (como também foi na segunda), porém só agora pudemos realmente vislumbrar a “legião” de personas de David.

All we need is love


Na verdade, Legion é uma série que nos deixa num dilema, pois torcemos para todos e ao mesmo tempo não há para quem torcer.

Em diversos momentos, todos acabam sendo vilões, em outros, todos são quase heróis. Nesse contexto, destaque para Sid (Rachel Keller), que tanto nos desperta ódio quanto paixão.

Falar da parte visual da série é chover no molhado. A forma com que é abordada a viagem no tempo é sensacional. Há um “corredor do tempo” no qual Switch pode trafegar pelo fluxo temporal (não sem pagar um preço) e o chamado “tempo entre o tempo” apresentado por Amahl Farouk – O Rei Das Sombras, visualmente maravilhosos, com esse último sendo retratado todo em stop motion.

Temos também os Demônios do Tempo, criaturas aterrorizantes que sempre aparecem como vultos e se alimentam do tempo ao seu redor, causando o envelhecimento de quaisquer coisas ou pessoas que se aproximem.

Esses demônios também se movem em stop motion, já que são oriundos do “tempo entre o tempo”.

Me dá uma garrafa d’agua


O plot de viagem no tempo também possibilitou que a série apresentasse mais um atrativo: Ainda que Charles Xavier, o mentor dos X-Men e pai de David Haller já tivesse sido citado diversas vezes no decorrer da primeira e segunda temporadas, nesta temos o telepata sendo interpretado por Harry Lloyd, nos mostrando como foram os eventos que levaram à “possessão” de David ainda bebê.

Temos também uma provável alusão à criação do Instituto Xavier, mas isso é outra história.

Tal pai, tal filho

O desfecho de Legion não é usual, ainda que seja simples, mas ficamos com um sabor de “ninguém venceu” na boca e já com saudades de um projeto que expande as fronteiras das abordagens de quadrinhos em várias direções, usando cores, música e dança para representar conflitos que normalmente seriam mostrados como batalhas, explosões e colantes coloridos.

Aqui, tudo isso é trocado por metáforas dos conflitos humanos, com uma boa dose de barbitúricos. Talvez não venhamos mais a ver esse tipo de produção tão cedo, pois a Fox agora é Disney e sabemos que a direção que a casa do Mickey tem para seu universo de heróis segue outro rumo, bem longe das alucinações.

O chá também é servido dia sim, dia não

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Fabiano Souza

CAPITÃO no meio campo, escreve textos e destrói falsos deuses antes do café da manhã