Justiceiro (1989) – entre erros e acertos, o único filme a entender o personagem!

Enquanto a Marvel anuncia novos filmes e séries, tanto com personagens novos como com velhos conhecidos apresentados ao público anteriormente, um pequeno grupo acabou levando a pior: os personagens com séries produzidas pela Netflix.

Há rumores de que o Demolidor passe por um reboot e volte para os cinemas; Punho de Ferro e Luke Cage não são mencionados; Jessica Jones deve ser varrida pra debaixo do tapete agora que seu criador, Brian Michael Bendis, assinou exclusividade com a Distinta Concorrência.

Mas o que mais preocupa é o Justiceiro, um personagem que seguiu um caminho tortuoso até aqui e parece que ainda vamos ter tantas reviravoltas quanto corpos na carreira do mais perigoso vigilante da Marvel.

O que você quer dizer com “compensação”?

O personagem parece ser bem mais difícil de adaptar do que a gente pensa: foram três filmes pra cinema* – tão ruins que cada um era reboot do anterior. Mas não é porque o filme é ruim que ele não é bom, não é mesmo? Aqui no Popsfera nós não só apreciamos filmes ruins como os valorizamos e damos o devido reconhecimento que eles merecem. E, por incrível que pareça, olhando em retrospecto, é a primeira incursão do Justiceiro nas telonas que permanece como a melhor.

Nossa história começa em 1986, quando a Marvel foi comprada pela New World Entertainment – o problema é que a New World não sabia o que tinha acabado de comprar. Um dos proprietários do conglomerado de mídia teria declarado a um colega, após a aquisição, que “acabamos de comprar o Superman” – só pra ser informado de que o Superman não era da Marvel e eles tinham, de fato, comprado a editora do Capitão América, Homem-Aranha, Hulk… Parece bem difícil de acreditar, mas a percepção do público sobre histórias em quadrinhos como negócio, na década de 80, ainda era… deficitária.

“Os trouxas pagaram uma bolada pelo Superman e vão levar Howard o Pato e Garota-Esquilo kkkkk”

Na verdade, o pessoal da New World não estava nem aí pra histórias em quadrinhos. O que eles queriam eram as propriedades intelectuais, o licenciamento para os extremamente lucrativos filmes e brinquedos. Conforme narrado no livro de Sean Howe, “Marvel Comics: The Untold Story”, o negócio foi fechado e não havia nada que pudesse ser feito. Até que o recém-formado em cinema Boaz Yakin abordou a New World com um roteiro para um filme do Justiceiro – que ele tinha escrito em dez dias. Como a New World queria personagens da segunda e terceira divisões da Marvel para fazer filmes baratos, a combinação pareceu perfeita para que dessem sinal verde pro projeto.

Dirigido por Mark Goldblatt, “O Justiceiro” (The Punisher) chegou em 1989 aos cinemas… da Alemanha. O lançamento no resto do mundo, inclusive no mercado americano, foi só DOIS ANOS DEPOIS. Era uma época de péssimas adaptações dos personagens da Marvel (teve o “Capitão América” em 1990, com direito a Caveira Vermelha italiano, e o “Quarteto Fantástico” de Roger Corman em 1994), mas isso não justifica: a DC/Warner já tinha mandado quatro filmes do Superman com Christopher Reeve (e, apesar da qualidade cair a cada filme, possuem aspectos icônicos até hoje) e o primeiro filme do Batman por Tim Burton estreiou no mesmo ano.

Ou seja, não tem explicação. O filme é assumidamente de baixo orçamento (mesmo assim deu prejuízo), sendo uma típica aventura de ação anos 80 – o que, no caso do Justiceiro, é muito positivo.

BUDDABUDDABUDDABUDDABUDDABUDDA…

A primeira coisa que percebemos, já torcendo o nariz, é que o “uniforme” do Justiceiro não tem a grande caveira branca no peito. Ao invés disso, o recurso narrativo encontrado para servir como identidade visual do herói são pequenos punhais com uma caveira no cabo – nosso vigilante favorito deixa sempre uma cravada em cada uma de suas vítimas. Tirando esse detalhe, o filme funciona que é uma beleza.

Mas é apenas o visual, né? Se a essência do personagem está lá, se os ecos temáticos do material original são respeitados, o espectador mais atento não tem dificuldades em reconhecer o Justiceiro. Não dá pra reconhecer muito bem é o ator que o interpreta: pintaram o cabelo do Dolph Lundgren de preto – e a barba na cara dele é pintada, deixando um efeito ridículo que é difícil ignorar. Ficou parecendo maquiagem de criança em festa junina. E não é só isso: em uma entrevista na época, ele afirmou ter perdido peso para o papel, pois não fazia muito sentido Frank Castle estar morando no esgoto há alguns anos e parecer saudável demais – dedicação ao personagem admirável!

“Eu não preciso de caveira no peito se EU for a caveira!”

Então que tal se a gente não falar do visual? O filme começa com ele pelado, ninguém quer ver isso. Claro, quem vai assistir o Justiceiro espera mesmo é muita ação e mortes, não é? E nisso o filme não decepciona: quando começa, ele já tem uma contagem de corpos de 125 ~pessoas~ criminosos! E, até o final da película, ele já matou mais 91 ~pessoas~ criminosos, sem contar os que morreram em explosões e não temos uma contagem precisa.** Porra, vai ficar encanando com faquinha, caveira no peito e cor do cabelo?! Aqui é ÓDIOÓDIOÓDIOÓDIOÓDIOÓDIO…

Não passamos muito tempo focados aqui na origem do Justiceiro: em alguns flashbacks vemos que sua família foi morta por criminosos, levando a sua busca incansável por vingança contra TODOS os bandidos. Castle já conseguiu eliminar boa parte dos mafiosos que encontrou, sobrando ainda algumas famílias que começam a ficar preocupadas com os métodos brutais, e a extrema precisão do misterioso vigilante. Sobra para a máfia japonesa Yakuza tentar dar cabo definitivamente do nosso herói – e, de quebra, assumir o controle do submundo do crime sem se preocupar com a concorrência.

MOLLA, JUSTICEILO!

Mas o Justiceiro não está sozinho nessa! O elenco de apoio desse filme também é sensacional: temos Louis Gosset Jr que, à época, devia estar com alguns boletos vencidos e por isso topou o papel de ex-parceiro de Frank Castle, e um mendigo alcoólatra que só falava em rimas. Por que? Ah, sei lá. Mas ele entrega algumas das melhores falas do filme (o que não é exatamente um grande feito quando você contracena com Lundgren).  

Tem muita ação, cenas de pancadaria muito boas, tiroteios frenétykos, explosões, ninjas, mortes bizarras e até lição de moral no final (com o Justiceiro falando pra um menino de 8 anos: “Se você não for um bom homem quando crescer, eu volto pra te matar *igual matei seu pai*.)

Uma babá mais que perfeita.

A verdade é que o Justiceiro pede esse tipo de filme: orçamentos menores, poucos efeitos especiais, um ou outro ator de destaque e uma história que exija violência initerrupta. O estilo anos 80 serve perfeitamente ao personagem, com Lundgren e seu olhar obstinado mostrando toda a obsessão do protagonista por vingança. Não vimos algo com essa qualidade nos cinemas, somente a série da Netflix teve mais tempo para se aprofundar na psiquê de Frank Castle. Onde os filmes posteriores falharam (o de 2004, estrelado por Thomas Jane, com sua total incapacidade de entender o humor negro de Garth Ennis, e War Zone, de 2008, que perdeu na queda de braço entre a diretora e o estúdio pela classificação etária), esse acerta em cheio: precisa ter ação, extremamente violento, mas a fibra moral de Frank Castle, um homem que viu as mais horrorosas guerras, permanece intacta ao ponto de ele ver a si mesmo como um monstro, um grande mal que não deveria existir…

…mas não agora. Por hora, o mundo ainda precisa do Justiceiro.

E de sua incalculável coleção de punhais com caveirinha!

* = a linha que separa o “para cinema” do “direto pra vídeo” é muito tênue aqui.

** = Fonte: Podtrash

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.