Godzilla 2 – o Rei dos Monstros

Quando foi a última vez que você se emocionou assistindo um filme? Mas se emocionar de verdade, chegando a derrubar lágrimas? O sacrifício do T800 em “Exterminador do Futuro 2”? A batalha final em “Vingadores: Ultimato”? “Marley e Eu?”

A minha foi ontem, assistindo “Godzilla 2 – o Rei dos Monstros” (Michael Dougherty, 2019). Como todo bom filme do gigantesco lagarto, há espaço para drama humano, pseudo-ciência e a construção do clima para uma batalha épica. Mas, mais do que isso, o que conseguiram dessa vez foi fazer uma grande homenagem aos 65 anos da mitologia do Godzilla.

Uma imagem com mais história e tradição que o Botafogo

Nossa história começa cinco anos depois de “Godzilla” (Gareth Edwards, 2014), quando a pesquisadora Emma (Vera Farmiga) desenvolve um sistema de sonar que pode permitir não só localizar Godzilla e outros titãs, como também se comunicar com eles – ainda que de maneira limitada, mas o suficiente para impedir que eles ataquem grandes centros urbanos. O problema é que o equipamento é roubado por um eco-terrorista (Charles Dance, o Tywin Lannister de Game of Thrones) que sequestra Emma e sua filha Madison (a espetacular Millie Bobby Brown, de Stranger Things). É quando a misteriosa organização Monarch é forçada a pedir ajuda ao ex-marido de Emma (Kyle Chandler) para localizá-la – não entendi exatamente porquê um ex-marido é a melhor pessoa para esse tipo de coisa, mas ok. Ele trabalha no projeto do sonar, então ok.

Maior atriz de sua geração

Ken Watanabe está de volta, ainda que um pouco estereotipado, como a voz da razão que consegue perceber o quanto Godzilla é importante para o equilíbrio do ecossistema do planeta. O que ele não sabe é que Emma está, na verdade, trabalhando com os eco-terroristas (e merece o troféu Superman Returns de Pior Mãe* por ter levado sua filha para uma selva onde estavam despertando monstros gigantes, e ainda a leva pra ajudar no trabalho!) justamente para trazer os titãs de volta, para que eles possam espalhar o caos no planeta e restaurar uma ordem em que a humanidade não esteja mais no topo da cadeia. Assim, acreditam que o planeta poderá restaurar sua biosfera e voltar a ser como era, antes que a humanidade o destrua. Emma desperta a gigantesca mariposa Mothra, mas o grupo acaba sendo responsável por trazer aí uma dúzia de titãs ao redor do globo – incluindo Rodan e o temível “Monstro Zero”: King Ghidorah!

Mas ninguém quer saber disso, certo? O importante é ver monstro gigante saindo na porrada e, nesse ponto, o filme não decepciona!

Maior ator de sua geração

O visual das criaturas é espetacular. Seja Mothra despertando, Rodan saindo  de um vulcão ou Ghidorah abrindo suas asas, tudo tem uma escala que faz jus ao perigo que eles representam. Quanto ao herói, não é diferente: Godzilla é imponente – e está furioso ao reencontrar seu velho adversário!

Como é explicado ao longo da trama, Godzilla foi o “alfa” dessas criaturas, milhares de anos atrás, até se ver ameaçado por um monstro alienígena: Ghidorah veio de algum planeta distante e foi derrotado a muito custo. Agora, os dois vão ter a chance de acertar as contas. O problema é que Ghidorah deseja, de fato, destruir o planeta, usando os outros titãs para isso, que o obedecem sem hesitar. A exceção é Mothra, que se coloca como defensora da humanidade e aliada de Godzilla. Daí pra frente tudo é devastação em larga escala, com a humanidade tentando se proteger como se fossem formigas.

Esse dia foi loko

O filme tem um final absolutamente arrebatador, com uma das cenas mais épicas da longa história cinematográfica de Godzilla. O último frame é qualquer coisa de inesquecível – e a bem sacada inserção do tema original de 1954 foi o que me fez não apenas derramar lágrimas mas também vibrar como se estivesse vendo aquelas criaturas ao vivo.

As cenas durante os créditos deixam claro o que vem por aí: Godzilla vs Kong estreia ano que vem e promete mais foco no confronto entre as criaturas. Kong é mais inteligente e sabe usar ferramentas, uma vantagem tática que promete dar muito trabalho a Godzilla.

Mas só existe um rei.

Alguns easter eggs interessantes:

Os antigos deuses
  • Kong e a Ilha da Caveira são citados algumas vezes durante o filme, bem como a Teoria da Terra Oca, amplamente divulgada por Emerson Valera;
  • A estação 32 da Monarca, localizada na Antártida, é uma referência direta à estação 31 de O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. Ghidorah e a Coisa foram… vizinhos?
  • A cidade submarina onde Godzilla recupera suas forças tem uma estátua do demônio Pazuzu, da série de filmes O Exorcista;
  • Nos filmes clássicos, duas gêmeas (as shobijin) eram capazes de invocar Mothra com uma canção. A pesquisadora da Monarca vivida por Zhang Ziyi faz referência direta ao antigo culto de adoração a Mothra;
  • Quando a Monarca mostra o mapa das criaturas ao redor do mundo, uma delas está localizada em Suzano.

Com um orçamento mais condizente com o estilo da série, foi possível ver toda a devastação das batalhas acontecendo diante de nossos olhos, o que é tudo que os fãs de Godzilla precisavam. Apesar do excesso de drama humano (a equipe da Monarca é gigante), a maioria dos atores se sai muito bem, mesmo com todas as longas explicações pseudo-científicas. Millie Bobby Brown é fantástica e Ken Watanabe devia ser patrimônio da saga.

O que realmente importa, no entanto, é ver o gigantesco réptil se firmando como rei dos monstros e a franquia ganhar fôlego para mais alguns filmes. Não resta dúvidas que, com uma mitologia tão rica, o que realmente é necessário está aqui: paixão pela história e dinheiro para a devastação.

DESGRAÇAAAAAAA
  • o troféu Superman Returns de Pior Mãe é concedido a todas as piores mães da ficção em memória da Lois Lane do filme Superman Returns, que invadiu o barco de Lex Luthor com seu filho de apenas cinco anos.
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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.