Finalmente Saiu: Mulher Maravilha 1984!

Finalmente saiu! Mulher Maravilha 1984 chegou nos cinemas e no serviço de streaming da Warner, o HBO Max, cercado de expectativa! Não é pra menos: além da diretora Patty Jenkins ter recebido um orçamento maior – e mais liberdade para trabalhar – o filme sofreu com um longo atraso causado pela pandemia. Com os cinemas fechados, a Warner não teve muita escolha: é melhor lucrar pouco do que nada. Mas será que valeu a espera?

A Trama

Diana Prince ainda não superou a morte de Steve Trevor, 70 anos depois. Ela continua trabalhando misturada às pessoas comuns no mundo do patriarcado, sempre com um sorriso e uma palavra encorajadora para todos – mas com uma grande melancolia enterrada na alma.

Trabalhando com a arqueóloga Barbara Minerva, elas descobrem um artefato curioso, que acreditam ser uma falsificação – o que elas não sabem (ainda) é que o artefato foi criado por um deus da trapaça e da mentira (um Loki greco-romano), e ele realiza desejos! Não tem nada que a tímida e desajeitada Minerva queira mais do que ser tão confiante, admirável e radiante como Diana – e não tem nada que a princesa queira mais do que ter Trevor de volta!

Entra em cena Maxwell Lord, um empresário-trambiqueiro em um momento, no mínimo, delicado: todas as suas promessas são vazias, seus negócios estão quebrando e seus investidores estão enfurecidos! O grande X da questão é que Lord sabe da existência do artefato que realiza desejos e, após alguns jogos e manipulações, ele finalmente o consegue – pior ainda, ele se torna um com a pedra que o energiza!

Enquanto Lord usa seus recém-adquiridos poderes para alavancar seus negócios em uma perigosa escala global, Minerva começa a se transformar no que ela mais queria – o que ela não sabia é que Diana era tão especial! Aos poucos ela vai se tornando não apenas mais confiante e admirada, mas também incrivelmente forte e ágil! E Diana se reúne com Trevor, que reaparece com todas as suas lembranças até seu sacrifício na Guerra, tomando a vida de outra pessoa!

O plano de Lord envolve colocar o mundo inteiro sob seu controle enquanto realiza desejos de todos que cruzam seu caminho, do mais simples taxista aos maiores líderes mundiais. Seu calcanhar de Aquiles é o filho Alistair, pra quem ele precisa dar atenção em finais de semana alternados – ele até quer dar atenção pro menino, mas só depois que concretizar seus planos! Diana e Minerva entendem que a única maneira de deter Lord é fazer com que ele desista do poder do artefato – mas isso significaria abrir mão de seus maiores desejos realizados e nenhuma das duas está disposta a isso! Trevor age como a voz da consciência de Diana, tentando fazer com que ela aceite o fato de que seu tempo acabou e ele é um homem que não deveria estar ali – mas Minerva está disposta a lutar com todas as suas forças, que não são poucas, pra garantir que não perca o que sempre sonhou!

Onde Errou

Desde o primeiro filme solo da Mulher Maravilha, a diretora Patty Jenkins vem sendo incensada como uma espécie de “tábua da salvação” – elogiada por trazer um pouco de luz e esperança ao Universo DC após “Batman vs Superman”, ela corajosamente brigou com os produtores para incluir uma cena espetacular da Diana no campo de batalha no primeiro filme, mas perdeu a queda de braço e acabou fazendo o confronto final com o vilão do jeito que os produtores queriam. Chegou a hora de parar com o discurso de “depois do Zack Snyder, qualquer um que vier é lucro” (taí o medonho trabalho de Joss Whedon pra derrubar essa afirmação). Jenkins não é uma má diretora e fez muito pela Mulher Maravilha, mas não é a salvação da lavoura.

A verdade é que seu trabalho (em ambos os filmes) é inconsistente e o ritmo do filme é bastante irregular. Seus vilões são caricatos, com gargalhadas histriônicas e planos megalomaníacos malucos. Se o primeiro filme foi criticado por, no final, Diana derrotar Ares com “o poder do amor”, adivinhe só: aqui ela derrota Max Lord com “o poder da verdade”. Claro, não existe um grande confronto físico com o humano mortal Lord, apenas um longo e moroso discurso que parece totalmente deslocado dentro do clima tenso que o final vinha desenhando. Por falar em deslocado, isso vem desde o começo do filme, com a “olimpíada” das Amazonas, que mais parece uma mistura de Olimpíadas do Faustão com ginástica sincronizada, e não uma verdadeira competição.

Steve Trevor retorna, assumindo a vida de outra pessoa – e em momento nenhum Trevor ou Diana demonstram algum tipo de preocupação sobre o que aconteceu com essa pessoa (a verdade, aqui, foi colocada em segundo plano em nome da reunião do casal). O filme tem uma série de soluções simples e explicações banais, até visualmente – quando alguém usa o artefato que concede poderes, um vento nada discreto sopra, pra indicar ao público que ela realmente funciona e “algo” está acontecendo – quem reclama do Michael Caine didático nos filmes de Christopher Nolan não pode achar que isso é uma solução melhor. É uma forma de subestimar o público, dizendo “olha, tem algo sobrenatural rolando agora, a pedra funciona mesmo, hein!?”

Aliás, uma coisa me incomodou bastante: uma ária de ópera num volume desconfortavelmente alto enquanto Diana apresenta o “mundo moderno” pra Trevor – inclusive uma performance de dançarinos de break. A ideia era mostrar, pela música, o quanto Trevor estava fora de seu tempo, mas só serviu pra irritar.

Voltando ao artefato, a “Pedra dos Sonhos”, ela tem um histórico legal: já esteve em poder de diversas civilizações que ruíram e é justamente isso que a torna tão perigosa – nada mais é explicado. Quem foi a divindade que a criou, quais seus motivos, onde ele está ou que ganha com isso? Como Lord ficou sabendo de sua existência? Ela deixou de existir? São questões que ficam sem resposta.

Pedro Pascal, tão elogiado em The Mandalorian, nos remete diretamente a vilões não-ameaçadores, que se perdem em meio a tantos trejeitos, mais ou menos como o Lex Luthor de Gene Hackman nos filmes do Superman com Christopher Reeve. A diferença é que Hackman é um ator fenomenal, que conseguia dar dignidade ao personagem mesmo quando ele era tratado como alívio cômico, e conseguia transmitir com seu olhar não só a indiferença pela vida humana como a inveja do Superman – Pascal está longe disso.

Aliás, como Maxwell Lord sabia que Steve Trevor tinha voltado à vida? Ele pergunta, num determinado momento, “Você quer existir? Quer ser um garoto de verdade?” Mas até ali, Lord e Minerva não tinham tido nenhuma interação onde isso pudesse ter sido revelado.

É nesse ponto que percebemos a principal fraqueza do filme: a reverência aos dois primeiros filmes do Superman, idealizados por Richard Donner – mais particularmente agora ao segundo filme, dirigido por Richard Lester. Se no primeiro filme tivemos uma homenagem com a cena do ataque no beco, em que Diana protege Trevor de balas, nesse nós temos dois vilões (Max Lord e Barbara Minerva / Lex Luthor e General Zod). A única diferença é que o principal vilão em WW84 não demanda um confronto físico, como o inesquecível Zod de Terence Stamp – mas Diana precisa lidar com a perda de seus poderes em nome de seu grande amor (a Pedra dos Sonhos, devo frisar, realiza desejos, mas tira algo em troca). Minerva também quer algo de Lord, como Luthor queria de Zod, e Diana vai precisar abrir mão de seu grande amor pra recuperar seus poderes – como Clark, em “Superman II”. A explicação pode estar no fato de Geoff Johns ser o co-roteirista do filme – ele trabalhou com Donner antes de migrar para os quadrinhos – e até a solução que desfaz tudo que Lord fez nos remete ao Superman fazendo o tempo voltar. Quando a gente tem uma homenagem é uma coisa, mas quando o roteiro é apenas uma revisão/reciclagem do que já foi feito antes, a suspensão da descrença fica seriamente ameaçada.

Pra não falar na cena pós-créditos, que se desenhou como uma bela e digna homenagem a Lynda Carter, atriz que interpretou a Mulher Maravilha na série de TV dos anos 70, e termina com… uma piscadinha pra câmera. A homenagem aqui é mais ao Superman da série de TV dos anos 50, interpretado por George Reeves, e seu efeito é pra lá de ridículo.

Também é muito estranho que a Mulher Leopardo tenha ficado no mesmo nível de poder de Diana, mas só ela foi afetada pela descarga elétrica usada pra derrotá-la. Talvez a armadura tenha seu próprio aterramento, vai saber.

E por que, em nenhum momento do filme, são usadas as alcunhas “Mulher Maravilha” e “Mulher Leopardo”? A DC ainda tem vergonha de suas marcas? Como é ter vergonha do nome da maior heroína do mundo em seu próprio filme, dona Jenkins?

Onde Acertou

Gal Gadot é, cada dia mais, a Mulher Maravilha. Seu carisma absurdo, o tom de voz, a paixão com que se dedica a toda e cada cena – ela pode não ser a mais sensacional das atrizes, mas é inegável o quanto ela caiu bem pro papel. Cada segundo dela na tela é preenchido por uma aura de quem, de direito e de fato, assumiu o manto de uma das mais icônicas personagens da popsfera.

Kristen Wiig também se saiu muito bem como Barbara Minerva, especialmente na forma como ela se descobre durante a transição em que consegue seus poderes. Aos poucos, os exageros e trejeitos vão sendo deixados de lado, ela se torna cada vez mais ameaçadora e a gente chega a torcer pra ela não perder os poderes. É uma pena que “de repente” tudo tenha ficado muito escuro na cena de seu confronto decisivo com Diana e a gente não consiga ver sua transformação com a riqueza de detalhes que ela merecia, mas Wigg está perfeita como vilã. Não tem como não ficar impressionado enquanto ela “depena” a armadura de Asteria. Ela merecia uma última cena mostrando pra onde foi ao final do filme – será que ela realmente abriu mão dos poderes?

Bom, não ficou claro se Maxwell Lord desfez tudo que tinha causado com os poderes ou se foram as pessoas que abriram mão de tudo que tinham desejado. Lord não tem mais os poderes da Pedra dos Sonhos? São implicações bem sérias e que, pra mim, ficaram muito mal explicadas.

Chris Pine é um ator bastante competente, com excelente timing pro humor, e já tinha mostrado no primeiro filme o quanto Steve Trevor é importante pra Mulher Maravilha. Sua química com Gal Gadot é visível e fica bastante difícil imaginar um próximo filme sem ele. A mensagem do filme, no entanto, foi clara: é hora de Diana seguir em frente. Sua despedida não foi lá muito bem executada, no entanto: ela simplesmente deixa ele atrás de uma coluna.

O filme é visualmente fantástico, com cenas que, infelizmente, foram feitas pra se ver no cinema (estamos no meio de uma pandemia, não existem “protocolos de segurança mínimos” pra ficar numa sala fechada). A arena na Ilha Paraíso foi um pouco brega, mas nem por isso menos supreendente. A luta decisiva entre Diana e Minerva perde um pouco por ser muito escura, mas ainda assim é muito boa – bem como a armadura dourada de Asteria, que serve mais pra Diana não ferir sua amiga do que realmente derrotá-la. Foi um grande acerto do figurino (que errou quando deu roupas que combinavam pra Diana e Trevor).

Diana usa o laço de maneiras novas, todas muito legais, e as cenas em que ela “laça” relâmpagos são espetaculares! Melhor ainda, as cenas em que ela aprende a voar são o puro suco do gibi (com direito a mais uma referência ao Superman de Christopher Reeve), mostrando todo o potencial da personagem sendo explorado. Aliás, é muito legal que ela use apenas o laço e os braceletes, sem espada e escudo. O voo dela não é mostrado em filmes que se passam cronologicamente depois, o que mostra um acertado “desligamento” das amarras que “Batman vs Superman” e “Liga da Justiça” poderiam lhe impôr. Não há uma morte sequer sendo mostrada na tela – e, se considerarmos que Trevor era apenas uma projeção dos desejos de Diana, nem ele morreu.

A trilha sonora de Han Zimmer é outro ponto positivo, com uma atualização do irritante tema da Mulher Maravilha. Mesmo na cena final do “confronto” entre Diana e Lord – onde pouca coisa funciona – a inserção de “A Beautiful Lie”, tema do Batman de Ben Affleck em “Batman vs Superman”, foi fantástica. Serviu para dar coesão ao universo cinematográfico, mesmo que não siga a cronologia à risca, além de ser um dos temas mais bonitos escritos para um filme de super-heróis. Aliás, o filme também justifica porque Diana foi contra tentar trazer Clark Kent de volta dos mortos em “Liga da Justiça”: ela entende perfeitamente o preço que isso pode ter. Aliás, perderam foi a chance de utilizar G. Gordon Godfrey como vilão, o que daria uma ligação ainda maior com os eventos de “Liga da Justiça”.

O Veredicto

Uma grande e divertida aventura com a maior heroína de todos os tempos, que consegue superar o primeiro filme – mas por muito pouco. Patty Jenkins é uma diretora bastante irregular e o anúncio de que ela vai dirigir “Rogue Squadron” para a LucasFilm/Disney deve ser visto com desconfiança. Quem sabe com roteiristas mais competentes ela consiga melhores resultados – isso serve tanto para “Rogue Squadron” quanto para futuros filmes da Mulher Maravilha.

Quem sai no lucro é Gal Gadot: a atriz consegue ficar imune às críticas, mesmo sendo limitada. Ela leva muito brilho, beleza, charme, graça, bondade e amor a cada cena – por mais que pareça algo clichê de se dizer. Não é algo que um ator possa conquistar com facilidade. Ninguém sequer cogita não termos novos filmes da Mulher Maravilha, ou substituí-la. Mesmo com o fiasco de bilheteria que a pandemia deve causar, a única coisa que queremos é mais Gal Gadot como Mulher Maravilha e, felizmente, “Zack Snyder’s Justice League” vem aí pra isso.

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.