Filme Velho, Novos Mutantes

Na longa história da franquia X-Men na Fox, poucos filmes sofreram tanto quanto Novos Mutantes – tivemos o vazamento de uma versão inacabada de X-Men Origins: Wolverine, que não melhorou muito depois de finalizado. Houve uma enxurrada de críticas negativas a X-Men 3, filme prejudicado pela saída do diretor Bryan Singer e por prazos apertados. Houve o estrondoso fracasso de Fênix Negra, um filme que não é ruim – só não justifica o elenco e o orçamento.

E temos Novos Mutantes.

Eu sempre gostei muito dos Novos Mutantes, particularmente durante a fase das “Guerras Asgardianas”. O gibi tinha algumas qualidades que faltavam aos X-Men, especialmente na maneira como os personagens lidavam com quem eram – e com quem deveriam ser. Quando eu conheci os X-Men, eles eram uma equipe estabelecida, mas eles nunca “se prepararam pra se tornar X-Men” – já os Novos Mutantes precisavam atender a uma série de expectativas. Do mundo, da comunidade mutante, do Professor Xavier, de Magneto, dos X-Men veteranos, deles mesmos – e, claro dos leitores. Vê-los no filme foi como resgatar um pouco desses elementos, pra uma franquia que vem fazendo sucesso desde 2000 e tendo que estar à altura das expectativas.

Nos cinemas, pelo menos, não conseguiram.

Rodado em 2017, o filme deveria ter chegado aos cinemas em abril de 2018. Uma série de decisões da Fox – inclua-se aí a aquisição pela Disney – foi empurrando o lançamento pra frente, até que ele foi finalmente dizimado pela pandemia do coronavírus. Com os planos de uma trilogia definitivamente enterrados, restou ao diretor Josh Boone torcer para que o impacto fosse positivo no mesmo nível de Deadpool, garantindo aí uma sobrevida para a franquia. Ele chega ao público em 2020, lembrando muito o “Chinese Democracy”, lendário álbum adiado do Guns n’ Roses: ele jamais será visto pelo que realmente é, e sim pelo momento em que foi lançado – longe de sua concepção original, com tempo de sobra para os envolvidos repensarem uma série de coisas, mas incapazes de voltar atrás para alterá-las.

Isso não quer dizer que o filme é ruim, pelo contrário. É um filme de terror B divertidíssimo, usando alguns dos personagens mais carismáticos do acervo de mutantes da Marvel: Miragem, Míssil, Lupina, Mancha Solar e Magia – jovens demais para o time principal dos X-Men, poderosos demais para serem mandados de volta pra casa. Aqui, eles estão em uma instituição sombria, sob os cuidados da doutora Cecilia Reyes, uma mutante que, de carismática, nunca teve nada – mas ficou ótima interpretada pela brasileira Alice Braga.

Tudo começa quando Danielle Moonstar testemunha uma aterrorizante tragédia na reserva cheyenne onde mora: um tornado destrói tudo – mas o pai de Dani é assassinado por uma figura misteriosa. Ela acorda em um hospital administrado pela Dra Reyes, que conforta a jovem indígena dizendo que ela é uma mutante – e que seu hospital é o lugar ideal para ela entender e controlar seus poderes, ao lado de outros jovens mutantes.

Mais do que isso, ela afirma trabalhar para o professor Charles Xavier e está ajudando os jovens sob sua tutela a controlarem seus poderes para se tornarem X-Men. Além de Dani, também estão internados Sam Guthrie, o Míssil; Illyana Rasputin, a Magia; Roberto da Costa, o Mancha Solar; e Rahne Sinclair, a Lupina. Todos eles foram hospitalizados na instituição da Dra Reyes após sofrerem uma grande tragédia – de modo geral, causada pelos seus poderes. A própria Dra Reyes é uma mutante, que usa ser poder de gerar campos de força para manter os jovens sob controle e confinados à sua instalação.

Além de estarem manifestando seus poderes mutantes, os jovens são atormentados por seus grandes temores. Os de Illyana são, de longe, os mais intrigantes: ela tem visões de horrendos “homens sorridentes”, os quais tenta evitar se apegando a seu dragão de pelúcia, Lockheed. As visões dos temores são cada vez mais reais e aterrorizantes – ao ponto de Rahne ser marcada com ferro quente durante uma visão de seu passado! Essas visões começaram após a chegada de Dani e logo deduzem que são seus poderes mutantes que estão colocando os demais em risco.

Alguns clichês, traições e reviravoltas depois, o grande temor da própria Dani se manifesta: o Urso-Demônio! Para enfrentá-lo, Illyana conjura seus poderes místicos – e uma versão real do dragãozinho Lockheed – unindo-se aos outros jovens para deter o temível Urso-Demônio.

O filme parece uma produção “pequena”, com reduzido número de locações e efeitos especiais – porque é pequena mesmo. Originalmente, deveria contar com James McAvoy e Alexandra Shipp reprisando os papéis de Professor Xavier e Tempestade, respectivamente, além do alienígena Warlock. Durante a produção, cortes foram feitos aqui e ali, prejudicando a visão original do diretor Josh Boone. A adaptação da saga Demon Bear foi certeira, pois foi um momento de grande popularidade do título dos Novos Mutantes, com o roteirista Chris Claremont flertando com temas como magia e misticismo, aliado ao traço característico do artista Bill Sienkiewicz. Mas ela sofreu tanto com a interferência do estúdio quanto “Fênix Negra”.

Pouco após o filmes ser finalizado, a Disney comprou a Fox – todos os personagens ligados aos X-Men voltaram para o controle da Marvel, que tinha seus próprios planos para a franquia. Refilmagens foram agendadas pra adequar o produto a seus novos proprietários, muitas dessas refilmagens jamais aconteceram e o resultado final é uma mistura do que a Disney queria com o que o diretor não queria. “Estávamos lidando com circunstâncias que a maioria das pessoas nem imagina”, afirmou o diretor. “Você se apega a uma ideia enquanto ela fica cada vez menor, até chegar uma hora e você dizer ‘não acredito que foi isso que fizemos'”.

Todos os planos de estabelecer Novos Mutantes como uma trilogia, inclusive uma cena pós-créditos em que Antonio Banderas viveria o pai de Mancha Solar, foram engavetados. “Se nos deixassem fazer mais um, seria ótimo. Se continuarem com os personagens de alguma forma, será ótimo. Acho que tivemos um dos melhores elencos possíveis”, declarou o diretor, que parece em paz com as decisões tomadas. Uma pena. Os Novos Mutantes realmente mereciam mais, da concepção ao lançamento.

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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.