Deve haver um Superman?

Esse é um debate que já rola há anos: como comportar um super-herói com ideias tão conservadores em uma era dominada por anti-heróis extremistas ou em meio a tempos sombrios.

Tempos desesperadores requerem medidas desesperadas

E novamente seremos confrontados em 2021, porque segundo o Bleending Cool postou em seu site, podemos ver o Superman se tornando o líder do grupo extremista Authority, como uma nova etapa das mudanças que Brian Michael Bendis tem estipulado para o kryptoniano. Ainda na seara dos rumores, não há qualquer confirmação por parte do careca, ou da DC, mas dá o que pensar.

E novamente faremos a pergunta de 1 milhão de dólares: Superman tem o poder para sobrepujar a humanidade com um estalar de dedos, mas essa postura mais proativa corrompe os ideais do personagem? Ou se associar a um grupo extremista como o Authority seria indício de que seus fortes ideais se corromperam?

Uma história em quadrinhos em particular traduziu esse sentimento e condensou tudo de maneira clara, simples e cristalina, Action Comics #775.

Escrita por Joe Kelly e desenhada por Doug Manhke, está publicação deu o verdadeiro tom do debate e mostrou, sim, que o Superman é mais do que necessário em tempos sombrios. O verdadeiro herói precisa dessas qualidades para não ser engolido pelo espírito da amargura ou ceder ao sentimento de vingança que certamente habita no coração e, mais do que isso, ter a força de vontade para mostrar discernimento do certo e do errado.

O que há de tão engraçado (e ao mesmo tempo, interessante) nesta história é que ela foi escrita durante o período em que The Authority, de Warren Ellis, Mark Millar e Bryan Hitch, era bastante popular, e o modelo exagerado de historias dos anos 90 era abertamente aplaudido. Em certos momentos o gibi de Millar era usado para fazer uma critica ao poder que a Liga da Justiça detinha e o quanto eles o desperdiçavam em fazer uma mudança real e verdadeira no mundo e não sendo apenas um band-aid numa ferida.

A Elite surge como uma versão perfeita de Authority da Wildstorm para ser utilizada nesse debate entre o preto, branco e cinza

Action Comics #775 mostra o Superman entrando em contato com a equipe de super-heróis The Elite, uma versão sem tirar nem por da Authority, composta pelo líder Manchester Black, Coldcast, Menagerie e The Hat. A Elite opera em uma área de ambiguidade moral e cinza. Eles ajudaram a derrubar um regime líbio e depois mataram uma equipe de vilões em Tóquio. As pessoas os amam por isso. Como Jack Ryder disse a Clark no Planeta Diário no início da edição: “A era do Superman acabou. Viva a Elite.” É muito legal ver Ryder aparecer nesta edição, não era algo que eu esperava, e também havia esquecido que Lex Luthor era presidente, com Amanda Waller trabalhando para ele. Os divertidos momentos de continuidade nesta edição são muito legais e me fazem querer ler mais algumas dessas histórias de “Superman” e “Action Comics” do início dos anos 90.

A edição continua quando o Superman se confronta e é humilhado pela Elite, sendo confrontado com a ideia de que talvez as ações da equipe estejam surtindo um efeito muito melhor do que o trabalho do Azulão. Em certo ponto, ele voa e visualiza um grupo de crianças brincando de super-herói e há algumas vestidas como os membros da Elite. Uma criança, vestida como o Superman, lamenta o fato de que ele tem que ser o super herói “que não pode matar ninguém” – e isso não é divertido.

Você pode ver o Superman lutando com essa ideia, mas ele não pode e não será corrompido. Porque Superman é mais que um homem. Superman é um ideal.

A história em quadrinhos termina com Superman dizendo a Black que ele nunca deixará de lutar por esse sonho de verdade, justiça e estilo de vida americano. Porque os sonhos não morrem.

Grant Morrison alimenta a ideia de que o Superman é uma ideia

Esta edição pode ser um daqueles livros superestimados ou sensacionalistas, mas em última análise, o que mostra é um Superman imune às ambiguidades do mundo em que vivemos. Como Grant Morrison escreveu em seu livro “Supergods“, a ideia de que o “Superman é tão real quanto a ideia de Deus”, e isso tem que significar algo em um meio que mostra histórias sem senso de bússola moral e um mundo que come das latas de lixo de ideologias que envenenam a humanidade.

Então, respondendo ao titulo desta matéria, a figura do Superman e seus fortes ideais deve ser encarada como o contra-ponto ideal em meio ao mar de mudanças sociológicas que o mundo passa. O personagem não é um conservador ou progressista e, por mais que aparente ter ideais políticos, na verdade ele carrega o espirito da verdade, justiça e de tudo que a humanidade pode e tem potencial para exercer.

Parafraseando uma historia muito importante e mudando só um pouquinho “O Superman é uma ideia e ideias não morrem”. Ele esta lá para nos constranger quando parecemos que estamos certos, mas na verdade estamos errados. Seus fortes ideais calcados por uma educação amorosa de pais criado no interior só embelezam e tornam a figura muito mais valorosa.

E quando olhamos por esse prisma, o da criação humilde por fazendeiros do interior dos Estados Unidos, podemos visualizar de uma forma mais ampla que na verdade o Superman é assim porque ele é o Clark Kent. Ainda o “caipira” que detêm uma índole e altruísmo fora do comum e que seria capaz de passar uma vida inteira lutando para manter a Terra a salvo. Em uma comparação simplória com Authority, a equipe tem um monte de Supermen, mas nenhum deles é Clark. nenhum deles tem uma bussola moral inabalável e preferem incendiar um planeta a escolher uma opção melhor.

Em sua simplicidade a figura de um personagem tão poderoso e que ao mesmo tempo é tão humano, força a humanidade a trilhar um caminho melhor, a olhar para si mesmo e se analisar. Então sim, a figura do Superman nunca se corromperia ou teria seus ideais mudados. Ao contrário, ele lutaria com todas as forças para que o errante olhe para dentro de si e veja que pode muito mais. Esse, meus amigos, é o Superman.

Avalie a matéria

Puyol Miranda

Uma simples testemunha da humanidade, que presencia todos os dias as grandes maravilhas de Deus. Além de presenciar o mais lindo momento de uma etapa de crescimento, me tornar pai. Sou analista de ti, leitor de quadrinhos, decenauta convicto e amante da tecnologia.