Cybercop – O Tokusatsu de Efeitos Toscos Que Tanto Amamos!

Sabe quando você tem uma boa ideia mas não tem um tostão para realizá-la? E, mesmo assim, você vai, se esforça, e faz? Pois é! Isso, basicamente, é a história de um dos tokusatsus mais queridos do Brasil: Cybercop, os Policiais do Futuro.

Pior que Cybercop (sim, sem “s” no final, não me perguntem o porquê) tem pedigree, é filho de mãe rica, da toda poderosa Toho, dona, dentre outras franquias, do kaiju mais conhecido do mundo: O Godzilla. A tradução para a palavra kaiju para o nosso português seria BICHÃO.

Porém o mercado de seriados televisivos japoneses, dominado pela Toei desde 1971 com o primeiro Kamen Rider, nunca foi lá uma praia muito profícua para a Toho: Godman (1972), Rainbowman (1972), Ryusei Ningen Zon (1973) e Megaloman (1979), foram algumas das várias tentativas da Toho de abocanhar uma parcela desse bolo, na maioria das vezes sem grande sucesso. Não que a Toho não quisesse, (lógico que queria, e muito!). Só estava meio que calejada de perder tantas batalhas. Então, receosa e com os pezinhos para trás, (e, principalmente, sem liberar grandes verbas), foi lá tentar novamente em 1988 com Dennō Keisatsu Saibākoppu a “Polícia Computadorizada CyberCop”.

Ok, e foi nesse clima de “uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e pouco dinheiro no bolso”, que Cybercop foi tocado. E para compensar a falta de dindim, muita criatividade foi utilizada. A começar pelo roteiro que era uma mescla de metal heroes com super sentai e de produções ocidentais, principalmente de Exterminador do Futuro e Robocop.

A sinopse da série era a seguinte: no longínquo futuro de 1999, a marginalidade tomou conta de Tokyo e o terror tava comendo solto. Para defender a população uma unidade especial da polícia foi criada, a ZAC (Zero Section Armed Constable, homenagem a JAC – Japan Action Club, o maior grupo de dublês do Japão, de onde vieram a maior parte dos atores), contando com o mais alto padrão de tecnologia existente, para combater o crime com seus trajes especiais, as unidades Cybers. O grupo era capitaneado pelo severo e justo capitão Oda e pela segunda em comando, a oficial Shimazu. Seu primeiro membro e líder de campo era Akira, que utilizava a primeira das cyber armaduras criadas, a unidade Marte, capaz de suportar e utilizar armamento pesado. Akira era rabugento e mal humorado, mas de bom coração e preocupado com a equipe. Ryoichi era o Saturno, com uma armadura composta de várias traquitanas para busca e localização, como radar, raio x, visão térmica e sensor de metais, era o galã de padoca do grupo, que dava em cima de todas, mas não pegava ninguém. O terceiro membro era Osamu, detentor da unidade Mercúrio, era o quietinho do grupo, que utilizava uma armadura mais voltada para ações em alta velocidade.

Logo no primeiro capítulo, junta-se a eles o misterioso Takeda, que fora encontrado desmemoriado no meio de uma tempestade elétrica, junto com sua unidade Júpiter. Takeda, na verdade, vinha de um futuro apocalíptico, dominado pelas máquinas da organização Destrap (olha a referência a Exterminador ai, meu povo). Tendo em vista o fantástico armamento que trouxe consigo, além da capacidade de invocar, via a misteriosa “cyberforça”, armamentos de incrível poder como a Cyber Thunder Arm, foi logo incorporado a equipe, ficando sob a vigilância constante do comandante Oda e de Akira (que adorava pegar no pé do pobre coitado).

O quinto Beatle do Cybercop era a jovem policial Tomoko (e bota jovem nisso, a atriz e cantora Mika Chiba tinha só 16 anos quando estreou na série). Ela era o coração da equipe, e uma das referências mais bem humoradas à falta de verbas da série, foi com a ideia de que Tomoko não recebeu sua tão sonhada cyber armadura porque não haviam mais fundos para a unidade Vênus (nada como a arte ironizando a vida…). Além de atuar, a cantora Mika também interpretava a música de encerramento da série, “Shooting Star”.

Barão Kageyama

Apesar do bom roteiro, boa trilha sonora e de ótimos antagonistas vividos pela Skynet, digo, Destrap, com seu líder fantoche, o supercomputador Führer e o verdadeiro chefe por trás das sombras, o traidor da humanidade e também viajante do tempo, Barão Kageyama, e de seus vassalos cientistas: Prof. Ploid, Madame Durwin e Dr. Einstein, Cybercop tinha que efetivamente lidar com suas limitações orçamentárias. Afinal como fazer episódios com essas dificuldades? Como fazer a série fluir sem ter os melhores meios para tanto?

A resposta foi usar da inventividade e de muita originalidade. A começar com a qualidade das gravações. Os tokusatsus da Toei eram normalmente gravados em película de 12mm, o que dava um ar superior e possibilitava a realização mais fácil de efeitos especiais de qualidade. Já Cybercop contava com gravação em vídeo (sim, vídeo!), o que dificultava, e muito, na hora da edição de efeitos. Mas isso não intimidou a equipe de efeitos especiais da série! Pelo contrário! Resolveram abraçar as dificuldades e experimentar! Fazer colagens, cortes e sobreposições de imagens, tentando dar um tom “diferenciado” e “cult” as inevitáveis limitações. Resumindo: Resolveram pegar o limão e fazer uma limonada.

Tá certo que a limonada muitas vezes saia meio amarga, mas não deixa de ser admirável o esforço e a imaginação que os caras tiveram, não deixando de fazer as cenas grandiosas sugeridas pelo roteiro, mesmo que, no final, acabasse com “algo meio tosco”, com cara de Photoshop mal feito, bizarro até mesmo para os padrões da época.

Além dos efeitos, outro ponto de inventividade era com o inimigo de cada episódio. Cada cientista da Destrap era responsável por uma linhagem de andróides ou criaturas cibernéticas que descaradamente usavam o mesmo “uniforme” de acordo com o “clã” com “discretas alterações” para não ficar muito na cara (mas ficava). Além de utilizar a exaustão o anti-herói favorito de todos os cyber fãs: Lúcifer, que, também vindo do futuro, culpava injustamente o Takeda pelo fracasso de uma tentativa de destruir a Destrap do século 23. Sua armadura, que apareceu diversas e repetidas vezes na série, era superior à do Júpiter, tendo maior poder de fogo e nem mesmo necessitava de uma cabine para transformação. (obviamente, ao longo da série, ficaram amiguinhos de novo e se uniram para destruir o verdadeiro traidor, o Barão Kageama).

Curioso que essa necessidade de reutilização e de estar sempre com os pés no chão levou a equipe de Cybercop a criar uma solução inusitada para algo que sempre encafifou os fãs de super-heróis, desde o bat-escudo da feira da fruta: de onde saem as armas dos super-heróis? No universo de Cybercop existe, ao menos, uma explicação menos proctológica: Elas vem em maletas, através de tubos pressurizados distribuídos pela cidade, acessíveis através do uso de cartão apropriado (cybercard) e de código digital em áreas específicas da metrópole. Ou seja, não vem do nada e nem de certos lugares onde o sol não bate! (Ok, tem as armas da cyberforca, mas ai tem a desculpa do vórtice espaço-temporal e tals).

Com tanta imaginação e dedicação, Cybercop estreou na tv japonesa em 1988, chamando a atenção da garotada, com índices de audiência bons em seu início. Porém, com o passar do tempo, e as inevitáveis comparações com a qualidade de seus concorrentes, a audiência foi gradativamente caindo e mesmo mudando de horário não conseguiu melhorar seus índices, perfazendo apenas 34 episódios e mais 2 episódios especiais de recapitulação da série.

Já no Brasil, as coisas foram diferentes. Nelson Sato, proprietário da Sato Company, vendo o sucesso que os tokusatsus estavam fazendo no país, resolveu ir para o Japão e trazer um henshin hero para chamar de seu e acabou encontrando na Toho Company uma oportunidade: além de trazer a série para o país, acabou adquirindo as armaduras do seriado. Nesse ínterim a série foi inicialmente oferecida para o SBT mas, no final, acabou estrelando na velha Rede Manchete, em 1990, com um pequeno detalhe: Sato quase fez o que Saban viria a fazer anos depois: Ele ia se juntar a Jayme Monjardim para criar uma versão ocidental e brazuca dos Cybercop (sim, Cybercop teria uma versão nacional, amigos!). Mas Monjardim estava abarrotado de trabalho com o núcleo artístico na Manchete, na época com novelas como Pantanal, o que inviabilizou o projeto (talvez tenha sido melhor assim…).

A despeito disso, Cybercop, com toda sua originalidade, criatividade e bons roteiros acabou caindo no gosto Brasuca, sendo um enorme sucesso em terras tupiniquins, gerando revistas em quadrinhos, bonecos, brinquedos e álbuns de figurinhas. E quanto àquelas armaduras, vocês se perguntam, bem, elas tiveram uma longa história, sendo utilizadas em circo shows que rodaram o país, com direito a apresentação ao vivo no Domingo legal do Gugu, até serem alvo de um grande imbróglio atual que envolve o empréstimo para restauração das já desgastadas armaduras e seu uso não autorizado pela Sato Company para manifestações políticas em vídeos e fotos que rolaram nas redes sociais.

No final, o mais intrigante de toda essa história é: Por que Cybercop fez tanto sucesso no Brasil em detrimento ao Japão? Talvez seja uma coisa que o brasileiro desde cedo sabe reconhecer e admirar e que Cybercop fez com maestria: Cybercop é a série que nasceu e se fez na base do “vai que dá certo”, do “vamos que vamos” e da “gambiarra”. É a série do “Jeitinho Brasileiro” e mesmo que esse jeitinho seja de lá do Japão, o Brasileiro sabe muito bem reconhecer e admirar um jeitinho que nem o seu.

Fica aqui a homenagem do Popsfera a Shogo Shiotani, ator e dublê da JAC que brilhou na série como Cybercop Marte. Infelizmente em 5 de maio de 2002, Shiotani cometeu suicídio pulando de um prédio. Uma grande perda para o mundo tokusatsu, descanse em paz, Akira, teu legado será eterno.

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Pai Fader

Pai fader - Um homem de bem com a vida, cheio de espiritualidade, com uma visão holística sobre esse misterioso mundo pop