Color Out of Space! Nicolas Cage! Alpacas! Lovecraft! A redenção de um diretor!

Ainda estamos em janeiro e já deve ser o oitavo filme do Cagaço esse ano.

Adaptar um clássico da literatura é sempre uma tarefa complicadíssima. Mídias diferentes, linguagens diferentes, narrativa diferente e, pra complicar, o peso de viver sob o nome do autor da história original e tentar se manter fiel a ela. Coloque no bolo atores consagrados, o dinheiro de Hollywood e um homem pode – literalmente – ir à loucura.

Foi o que aconteceu com Richard Stanley nos anos 90, quando ele foi escalado para adaptar o clássico de H.G. Wells, “A Ilha do Dr Moreau”.

Augusto Velazquez e Marlon Brando

Stanley desenvolveu o projeto como um filme B, para poder se manter fiel ao que a história realmente representava, e não um show de efeitos especiais e pouco coração. As coisas mudaram quando Bruce Willis se interessou pelo filme e foi escalado no papel principal. O orçamento foi às alturas, produtores começaram a despejar grana (e palpites) e Stanley começou a sentir que estava perdendo as rédeas do projeto que idealizou.

Entra Marlon Brando, e aí a coisa foi pro caralho de vez. Entre suas bizarras exigências, ele queria ter sempre um anão junto de si em cena (anos mais tarde, Mike Myers criou o Mini-Mim em Austin Powers como uma “homenagem” a Brando), usar um balde na cabeça (talvez o guitarrista Buckethead, ex-Guns n’ Roses, também o estivesse homenageando) e não decorar suas falas. Isso mesmo, o oscarizado e milionário Marlon Brando se recusava a decorar o roteiro. Ele dizia que era pra ter espontaneidade nas cenas – mas era óbvio que não passava de preguiça. Ele recebia suas falas por fone de ouvido ou as lia em cartazes durante a cena, tornando a vida dos contra-regras um inferno. Pra piorar, Bruce Willis abandonou o barco por conta de seu processo de divórcio e, em seu lugar, entrou um Val Kilmer ansioso por ser o próximo grande nome de Hollywood.

Só piorou. Kilmer também entrou em processo de divórcio e, psicologicamente transtornado, brigou com todo mundo da produção e chegou às vias de fato com o diretor – na frente de toda a equipe!

“Esse povo vive divorciando…”

Foi aí que a vida de Stanley virou um pesadelo lovecraftiano. Demitido pelo estúdio por não estar sabendo lidar com os astros, o diretor teve um colapso nervoso e fugiu, simplesmente desapareceu, para desespero dos produtores que temiam declarações sobre o que aconteceu nos bastidores da gravação. Sua carreira parecia encerrada.

(Se essa história parece louca demais pra você, assista o documentário Lost Soul: The Doomed Journey of Richard Stanley’s Island of Dr. Moreau e constate como a realidade pode ser mais estranha que a ficção!)

Seu currículo praticamente desaparece desde então, com apenas três trabalhos como diretor de cinema, até que surge “Color Out of Space” em seu caminho. A adaptação de um dos mais famosos contos de H.P. Lovecraft, algo temido por qualquer diretor, já parecia um problema bem grande: Lovecraft nunca foi de descrever muito o que as pessoas viam, e sim suas reações de medo e terror. Coloque na mistura o astro Nicolas Cage, um visual vaporwave, alpacas e até uma citação de Raul Seixas (“sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade”) e o que temos?

Um dos mais espetaculares filmes do mês de Janeiro!

Meio esquisito, é verdade…

Tudo começa quando um estranho meteorito cai na fazenda onde Nicolas Cage vive com sua mulher, três filhos e uma cáfila de alpacas. O meteoro emite radiações e gases que não só começam a causar estranhas mutações nas formas de vida ao redor como também levam os moradores da fazenda à loucura.

E basicamente é isso. A história original é realmente muito curta, mas o brilhantismo do verdadeiro visionário Richard Stanley foi focar justamente nas reações das pessoas ao meteorito. Ver Nicolas Cage surtado nos faz perguntar o quanto o diretor usou de sua própria experiência trabalhando com Val Kilmer e Marlon Brando pra guiar seu astro nessa jornada a um abismo rosa, lilás e roxo. Isso mesmo, essa foi a paleta de cores que o diretor escolheu para mostrar os efeitos das emanações do meteoro! O efeito é espetacular e todo o elenco se mostra bastante competente na desgraça que os ronda, com direito até mesmo a Tommy Chong, da dupla Cheech e Chong, no papel de… Bem… de Chong.

Temos momentos perturbadores. Momentos nojentos e perturbadores em uma história bem construída, alguns sustos e muitas cenas que dão uma sensação quase claustrofóbica. Se havia dúvidas da capacidade do diretor sul-africano em tornar uma produção B (custou apenas 12 milhões de dólares) em um marco audiovisual, eles acabam aqui. Talvez a sua experiência em “A Ilha do Dr Moreau”, quase 25 anos antes, o tenha credenciado a entender melhor a decadência e o medo, a mergulhar nos recônditos mais obscuros da mente humana e sair de lá com uma visão de mundo mais macabra, mais pessimista e aterradora – mesmo que pintada com belas cores e o talento de Cage. Algo que dificilmente será superado ainda no mês de Janeiro.

Ou no século 21…
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Raul Kuk o Mago Supremo

Raul Kuk - o Mago Supremo. Pai de uma Khaleesi, tutor de uma bruxa em corpo de gata.