A história por trás de Layla

Por trás de uma bela canção quase sempre esperamos encontrar uma bela história. No rock’n’roll isso nem sempre acontece. Para ilustrar esse cenário, vamos falar sobre a composição de um dos maiores clássicos do rock: Layla.

Capa de Layla and Other Assorted Love Songs

Composta por Eric Clapton no fim dos anos 60 e parte do álbum Layla and Other Assorted Love Songs, de 1970, Layla faz alusão a um poema de Kais Ibn Almoulawwah que conta a história de Majnun, um jovem apaixonado por Layla desde a infância. Esse é um amor proibido por pertencerem a clãs diferentes e Layla já haver sido prometida a outro homem. É uma história bem similar a de Romeu e Julieta e é uma das mais conhecidas do mundo oriental.

Fosse apenas isso e, apesar de belíssima, seria apenas outra música qualquer com inspiração em obras literárias, mas trata-se de bem mais do que o poema. É uma história de traições, atitudes passionais, estrelas da música, estrelas do cinema e a tríade sexo, drogas e rock’n’roll!

À esquerda, Boyd e Clapton. À direita, ela e Harrison

A musa inspiradora de Clapton chama-se Patty Boyd, uma modelo escalada como figurante para o filme A Hard Day’s Night, o primeiro filme dos Beatles, de 1964. Nessas gravações a garota conheceu George Harrison num intervalo entre as tomadas. Pouco tempo depois, formavam um casal e se casariam em 66.

Em 1968, o Fab Four fez uma viagem ao templo de Maharishi Mahesh, na Índia. George Harrison foi quem ficou mais impressionado com a filosofia do yogi e se tornou obcecado pela pratica da meditação, passando longos períodos em isolamento e apresentando aspectos depressivos. Isso começou a causar os primeiros problemas no relacionamento entre o guitarrista e Patty, fora o indicio de que Harrison também ciscava fora do terreiro, tendo casos com outras mulheres. Mesmo assim, em 69 foi lançada Something, uma belíssima música composta pelo guitarrista para sua esposa.

O casal Harrison no inicio

É nesse cenário que surge Clapton, com um talento incrível e problemas para administrar a fama. Ele queria a todo custo fugir do estigma de super-astro e vinha de tentativas frustradas nesse sentido. Já havia feito parte do Yardbirds, dos Bluesbreakers, do Cream e do Blind Faith e em todas falhou em sua tentativa de anonimato.

Clapton tinha terminado um affair com uma francesa, amiga de Boyd. Esta então foi passar alguns dias na casa dos Harrisons. Há indícios de que George tenha também “vitimado” a moçoila. Foi mais ou menos nesse período que Clapton começou a frequentar Kinfauns (a luxuosa casa de Harrison, em Esther, palco entre outras surpresas, das gravações demo do Álbum Branco dos Beatles).

Os dois músicos haviam se tornado bem próximos, gravando e compondo. Com isso, era muito comum encontrar Eric na residência de George e Patty. No final de 1969, Clapton foi apresentado à irmã de Boyd, Paula, de apenas 17 anos. Pouco tempo depois, estavam morando juntos.

Paula Boyd

Os laços, claro, se estreitaram ainda mais e, na primeira metade de 1970, Patty e George mudaram-se para Oxfordshire. O caldo começaria a entornar de vez.

Patty recebeu, logo nos primeiros dias na casa nova, uma carta anônima com as palavras à seguir:

“querida l. como você provavelmente já percebeu, meus assuntos caseiros são uma farsa galopante, que estão se degenerando dia após intolerável dia… parece uma eternidade desde a última vez que te vi ou falei com você!” (Assim mesmo, sem maiúsculas!)

A carta ainda pedia uma resposta aos sentimentos expressados. À noite, Clapton ligou para Patty e assumiu a autoria: “Recebeu minha carta? ”. Ficava agora exposto o interesse do guitarrista pela esposa do amigo.

No decorrer de algum tempo (segundo Patty) eles continuaram se encontrando, porém, sem que nada acontecesse. Clapton fazia pequenos mimos, como na ocasião em que trouxe para a amada calças boca-de-sino de uma de suas excursões aos Estados Unidos. Seria a inspiração para “Bell Bottom Blues”, lançada também no álbum Layla and Other Assorted Love Songs.

Num desses encontros, finalmente o coração de Boyd amoleceu de vez. Num apartamento em Kensington, Clapton colocou no gravador uma canção para que ela ouvisse: Layla! Ela sabia que a canção era para ela.

Nessa mesma noite ele à seguiu até um teatro e depois a encontrou “casualmente” numa festa na casa do empresário e produtor Robert Stigwood. E foi nesta festa regada a quantidades extremas de drogas – como era (?) praxe – que se deu um dos momentos mais inusitados dessa história.

Pouca droga

George chegou tarde à festa e a maioria dos presentes já estava chapada. Ele sabia que Patty estava na casa, mas não a encontrava. A verdade é que a garota estava no jardim com… Clapton. Este a pedia para fugir com ele e se declarava mais uma vez. Quando encontrou os dois, Harrison perguntou o que estava acontecendo e a resposta foi surpreendente: – “Cara, estou apaixonado por Patty, sua esposa! ”. Eu imagino a cena… George olhou nos olhos de Boyd e apenas a questionou: – “ Bem, você vai com ele ou volta para casa comigo? ”.

Patty Boyd acabou voltando para casa. O reencontro com Eric Clapton veio a acontecer algum tempo depois, quando convenientemente George Harrison estava viajando. Que fique claro aqui: Clapton já vinha flertando também com a heroína e fez um ultimato à Boyd, dizendo que, caso ela não fugisse com ele, abandonando Harrison, se afundaria na droga. Boyd não o fez e, então, Eric cumpriu a promessa tornando-se um viciado. Como dito, ele já era um adepto do uso e apenas o intensificou. Se o catalizador foi mesmo o amor não correspondido, fica a dúvida. Paula, a irmã de Boyd, caiu fora nessa época.

Saltemos então para agosto de 71, quando (pasmem) Harrison fez com que Clapton saísse de casa e do estupor químico para tocar em um evento filantrópico. Em 73, mais uma tentativa foi feita em Finsbury Park, desta vez, carregado por Pete Townshend, do The Who. Depois disso, Clapton aceitou a ajuda dos amigos e iniciou um tratamento para se livrar da heroína. Harrison foi fundamental nesse apoio.

É curioso que Harrison tenha ajudado Clapton e, ao mesmo tempo, aprontado com Boyd. Na primavera desse mesmo ano, deixou de viajar com a esposa e foi ao encontro da esposa de Ron Wood, Krissie, com o suposto pretexto de ver uma exposição de Salvador Dali. Nessa época Ron ainda era baixista do The Faces. Ele assumiria a guitarra nos Stones em 75, na vaga deixada por Mick Taylor. Patty, talvez para retribuir na mesma moeda, engatou um pequeno caso com Wood.

Ron Wood malandrão

Harrison nessa mesma época também foi pego em flagrante com Maureen Starr, a esposa de Ringo Starr. Boyd esmurrava a porta do quarto onde estavam George e Maureen, gritando. Ouvia-se a risada de Harrison e, depois de algum tempo, ele abriu a porta, com um sorriso no rosto e disse que Maureen estava se sentindo mal, então deitou-se para descansar. A sra Starr continuou frequentando a casa dos Harrison mesmo depois desse episódio, até que Boyd contou a Ringo o que acontecia.

Ringo Starr e Maureen

Numa noite em que o ator John Hurt estava na casa dos Harrison e as investidas de Clapton para cima de Boyd se intensificavam, pedindo a todo momento que Boyd deixasse o marido, houve a famosa disputa de solos. Harrison preparou “o palco”, deixando duas guitarras e dois amplificadores prontos. Ele esperava Clapton e assim que este chegou, sem dizer nenhuma palavra, estendeu uma das guitarras ao amigo. O duelo durou mais de duas horas. Rumores dizem que Hurt decretou (não para os duelistas): – Apesar de talentoso, Harrison perdeu. Clapton é imbatível.

No fim de 73, a relação do casal Harrison era já insustentável. No início de 74 George, emulando o feito do próprio Clapton, disse a Ringo que estava apaixonado por Maureen. Ringo viria a se divorciar em julho de 75.

Em 4 de julho de 74, Patty Boyd deixava Harrison e partia rumo aos Estados Unidos para encontrar Eric Clapton. Viveram juntos e ela o acompanhou nas drogas e álcool, se tornando também uma viciada. Casaram-se em 1979 e logo depois Clapton compôs, também para ela, Wonderful Tonight.

O casamento durou até 84, quando ela decidiu deixa-lo, tanto pelo vicio quanto pelas constantes traições, em especial com a modelo italiana Lory Del Santo, com quem Clapton teve um filho, Connor, que infelizmente caiu da janela do apartamento onde morava com a mãe e morreu em 1991. O guitarrista compôs a música Tears in Heaven, onde expressa sua dor pela perda.

Clapton e Lory Del Santo

Boyd e Clapton tiveram idas e vindas entre 84 e 89, ano em que definitivamente se divorciaram. Ela escreveu todo o relato sobre seu relacionamento conturbado com as duas estrelas do rock em Wonderful Tonight: George Harrison, Eric Clapton, and Me, um livro autobiográfico publicado em 2007.

Harrison se casou com Olivia em 78 e com ela teve um filho, Dhani. Ele morreu em 2001, aos 58 anos. Ele e Clapton seguiram amigos durante todos esses anos e Clapton capitaneou o show em homenagem a George.

Eric, Ringo e Dhani no palco em homenagem a George Harrison

Essa história de amor, traições e amizade gerou grandes clássicos do rock, entretanto, como o crítico David Marsh escreve em seu texto na The Rolling Stone Illustrated History of Rock and Roll: “Há poucos momentos no repertório das gravações de rock&roll onde um cantor ou compositor foi tão fundo dentro de si mesmo, que o feito de escutar a canção é semelhante a testemunhar um assassinato ou um suicídio. Layla é o maior deles.”

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Fabiano Souza

CAPITÃO no meio campo, escreve textos e destrói falsos deuses antes do café da manhã